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Volta das férias | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Passei três semanas em Portugal. Como, sem imaginação, faço há mais de 20 anos. O fato de lá ter o que me parece um agradável apartamento em andar térreo dando para um vasto jardim com piscina de bom tamanho e poucas crianças (as crianças lusas são as mais chatas do mundo; passa com a puberdade) e estar a distância razoável para um homem que, como eu, mais se arrasta que caminha, também conta ponto. O principal no entanto é ficar sentado na parte raza da "pixina" – pois assim se pronuncia antes de qualquer acordo oral – como um focão pegando a porção que me cabe daquele velho amigo de tempos brasileiros, o tal de Sol, com S maiúsculo. Gosto, pois, também, do bronzeado adquirido em terras lusitanas. Bronzear é uma coisa. Arder é outra. Manchetes Nesses anos todos um só é o assunto da temporada julho-agosto: vastos incêndios, florestas a arder. As manchetes são invariáveis como o repertório de um fadista: "espaços florestais nacionais estão a desaparecer", "devastação", "fogos postos" (é incêndio criminoso), "estragos e reacendimentos", "bravura, esforço e dedicação de bombeiros e sapadores" – e os números. Ah, os números! Durante décadas, o maior fogo florestal foi o que devorou 12 mil hectares, em Arganil. Agora, em 2004, só em julho, as chamas já teriam levado 34 mil hectares da serra do Caldeirão. Na "pixina", sinto-me a salvo. Nela aguardo ano de ferver e ficar como as lagostas e as gambas (são camarões, ora!) que fazem parte de minhas cada vez mais reduzidas alegrias gustativas. Alegrias entre as quais há também ler o jornal de cabo a rabo, detendo-me com atenção na política local, mais incompreensível para mim que James Joyce. Nomes que nunca vi mais gordos, siglas que me mistificam. Nunos, Manuéis e Antónios, Marias, Joanas e Fernandas, PFRs, PGDs e CPLs – e assim por diante. Toda política deve ser assim: incompreensível. Toda pessoa deve ser isso: uma incógnita. Enquanto tenho forças vou vivendo esse espanto e surpresa, queimando a fogo lento e distante. Vez por outra dando, alegre, com uma manchete como essa que encontrei no Público de 7 de agosto: "Trolhas fazem furor na Internet". Não, não era nada do que pensei, pensamos. "Trolha" é piropo. Manjamos: aquele galanteio, pesado ou leve, que se dirige à mulher para 200 talheres que passa na frente da gente na rua. O folclore dos desencontros de nossas línguas não pode acabar. |
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