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Minoria russa é desafio para a Letônia e a Estônia | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O estoniano Jaak Annok, de 66 anos, se lembra bem do dia 25 de março de 1949. Os guardas soviéticos entraram na casa de seus avós - que eram kulaks, pequenos e médios proprietários de terra considerados traidores da revolução - e o levaram para a Sibéria. Ele passou cinco anos lá antes de poder retornar à Estônia. Como Annok, centenas de milhares de estonianos, lituanos e letões foram deportados para a Sibéria logo depois da Segunda Guerra Mundial. Na mesma época, o comando soviético iniciou o processo de industrialização e russificação dos países bálticos. Na Estônia, por exemplo, a proporção de estonianos caiu de 90% da população em 1940 para 61,5% em 1989. Na Letônia, nos 46 anos de ocupação soviética, a porcentagem de letões caiu de cerca de 80% para 52%. A Lituânia foi menos atingida por esse processo e os russos formam cerca de 9% da população. Mas na Letônia e na Estônia, por volta de um em cada três habitantes é de origem russa. A integração entre os diferentes grupos étnicos permanece o principal desafio para esses países. Sem cidadania Quando os países bálticos se tornaram novamente independentes em 1991, foi iniciado um longo processo para resolver o problema da cidadania dos moradores.
Em parte por causa das dificuldades para aprender a língua, um quinto dos habitantes da Letônia e 12% dos da Estônia ainda não têm cidadania definida. Mas, segundo a diretora do Departamento de Migração e Cidadania da Estônia, Mari Pedak, as perspectivas para a entrada do país na União Européia podem estar fazendo com que muita gente reconsidere a decisão. Em janeiro e fevereiro deste ano, foram registradas 400 inscrições para obter cidadania estoniana. Em março, o número dobrou. “Por algum tempo, as pessoas achavam que, com a adesão à União Européia, elas ganhariam a cidadania automaticamente”, afirma Pedak. “Mas agora elas começaram a perceber que não é assim.” Narva O quadro mais extremo é verificado nas cidades que fazem fronteira com a Rússia. Tratam-se daquelas onde os russos foram incentivados a se estabelecer durante o processo de russificação.
A cidade fica na nova linha de fronteira da UE, e mais de 90% de seus moradores são russos. Mas Narva é também uma cidade castigada pelo desemprego, que chega a 18,2% - o dobro do que em Tallin. A grande atração da praça principal é o posto de controle de passagem para a Rússia, onde os moradores vão regularmente comprar cigarros e remédios mais baratos ou visitar familiares. Nicolai, de 54 anos, é portador do chamado passaporte cinza. Este é o documento usado pelas pessoas que não têm cidadania definida. Ele diz que a falta de emprego em Narva o obriga a buscar trabalho longe dali. Com isso, não sobra tempo nem dinheiro para aprender o estoniano. “No período soviético, não havia necessidade de se aprender o estoniano”, diz ele. “Eu vivo aqui já há mais de 35 anos e eu acho que não seria um problema para o Estado dar a cidadania para as pessoas mais idosas.”
“Espero poder passar no teste e conseguir a cidadania estoniana”, diz ela. Lei da educação Tanto na Estônia como na Letônia, a restauração da língua local é vista como fundamental para a preservação da própria identidade. Na Letônia, uma nova lei de educação que deve entrar em vigor em setembro passará a exigir que todas as escolas do ensino médio ofereçam 60% das disciplinas em letão. A decisão está contrariando muitos estudantes russos, que deram início a uma série de protestos contra a medida. O mais recente aconteceu em meados de abril, quando milhares de alunos foram às ruas pedindo a suspensão do plano. A estudante universitária Anna Iskenderova, de 19 anos, não será afetada pela medida, mas participa da coordenação do movimento. “A Letônia é um país democrático”, diz ela. “A minoria russa chega a quase 40% da população e tem o direito de estudar na língua que quiser.” Vlad Andzeyev, de 25 anos, acredita que o russo deveria se tornar a segunda língua oficial da Letônia. “A Letônia não é uma terra só de letões”, afirma o estudante. “Nós somos quase metade da população. Não somos invasores.”
Uso político? Para Evija Papule, chefe do departamento de integração do Ministério da Educação e Ciência da Letônia, é preciso distinguir o aspecto professional do aspecto político da questão. Ela diz que, até o início dos protestos, a maior parte dos pais, alunos e escolas pareciam concordar com a medida, mas os sinais de reprovação agora são mais fortes. Para Letônia e Estônia, fazer do russo uma língua oficial não é uma opção. “Uma medida dessas significaria que, nas empresas, nos hospitais, nós poderíamos empregar apenas pessoas fluentes em estoniano e russo”, diz o presidente estoniano, Arnold Rüutel. “Isso era uma obrigação nos tempos soviéticos. Você acha que nós deveríamos voltar a esse tipo de situação?” |
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