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Atualizado às: 30 de abril, 2004 - 19h07 GMT (16h07 Brasília)
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Minoria russa é desafio para a Letônia e a Estônia

Jaal Annok
O estoniano Jaak Annok foi um dos milhares de deportados à Sibéria
O estoniano Jaak Annok, de 66 anos, se lembra bem do dia 25 de março de 1949. Os guardas soviéticos entraram na casa de seus avós - que eram kulaks, pequenos e médios proprietários de terra considerados traidores da revolução - e o levaram para a Sibéria. Ele passou cinco anos lá antes de poder retornar à Estônia.

Como Annok, centenas de milhares de estonianos, lituanos e letões foram deportados para a Sibéria logo depois da Segunda Guerra Mundial. Na mesma época, o comando soviético iniciou o processo de industrialização e russificação dos países bálticos.

Na Estônia, por exemplo, a proporção de estonianos caiu de 90% da população em 1940 para 61,5% em 1989. Na Letônia, nos 46 anos de ocupação soviética, a porcentagem de letões caiu de cerca de 80% para 52%.

A Lituânia foi menos atingida por esse processo e os russos formam cerca de 9% da população. Mas na Letônia e na Estônia, por volta de um em cada três habitantes é de origem russa.

A integração entre os diferentes grupos étnicos permanece o principal desafio para esses países.

Sem cidadania

Quando os países bálticos se tornaram novamente independentes em 1991, foi iniciado um longo processo para resolver o problema da cidadania dos moradores.

Passaporte cinza
Quem não tem cidadania definida usa um passaporte cinza
Muitas das pessoas que não nasceram nesses países tiveram de passar por um teste sobre a língua local para obter a cidadania.

Em parte por causa das dificuldades para aprender a língua, um quinto dos habitantes da Letônia e 12% dos da Estônia ainda não têm cidadania definida.

Mas, segundo a diretora do Departamento de Migração e Cidadania da Estônia, Mari Pedak, as perspectivas para a entrada do país na União Européia podem estar fazendo com que muita gente reconsidere a decisão.

Em janeiro e fevereiro deste ano, foram registradas 400 inscrições para obter cidadania estoniana. Em março, o número dobrou.

“Por algum tempo, as pessoas achavam que, com a adesão à União Européia, elas ganhariam a cidadania automaticamente”, afirma Pedak.

“Mas agora elas começaram a perceber que não é assim.”

Narva

O quadro mais extremo é verificado nas cidades que fazem fronteira com a Rússia. Tratam-se daquelas onde os russos foram incentivados a se estabelecer durante o processo de russificação.

Posto de controle da fronteira em Narva
Posto de controle da fronteira em Narva
Narva, a 200 quilômetros da capital estoniana, Tallin, é uma delas.

A cidade fica na nova linha de fronteira da UE, e mais de 90% de seus moradores são russos.

Mas Narva é também uma cidade castigada pelo desemprego, que chega a 18,2% - o dobro do que em Tallin.

A grande atração da praça principal é o posto de controle de passagem para a Rússia, onde os moradores vão regularmente comprar cigarros e remédios mais baratos ou visitar familiares.

Nicolai, de 54 anos, é portador do chamado passaporte cinza. Este é o documento usado pelas pessoas que não têm cidadania definida.

Ele diz que a falta de emprego em Narva o obriga a buscar trabalho longe dali. Com isso, não sobra tempo nem dinheiro para aprender o estoniano.

“No período soviético, não havia necessidade de se aprender o estoniano”, diz ele.

“Eu vivo aqui já há mais de 35 anos e eu acho que não seria um problema para o Estado dar a cidadania para as pessoas mais idosas.”

Kristina
Kristina diz que espera conseguir cidadania estoniana
Kristina, de 14 anos, também tem o passaporte cinza, mas está aprendendo o estoniano na escola.

“Espero poder passar no teste e conseguir a cidadania estoniana”, diz ela.

Lei da educação

Tanto na Estônia como na Letônia, a restauração da língua local é vista como fundamental para a preservação da própria identidade.

Na Letônia, uma nova lei de educação que deve entrar em vigor em setembro passará a exigir que todas as escolas do ensino médio ofereçam 60% das disciplinas em letão.

A decisão está contrariando muitos estudantes russos, que deram início a uma série de protestos contra a medida.

O mais recente aconteceu em meados de abril, quando milhares de alunos foram às ruas pedindo a suspensão do plano.

A estudante universitária Anna Iskenderova, de 19 anos, não será afetada pela medida, mas participa da coordenação do movimento.

“A Letônia é um país democrático”, diz ela.

“A minoria russa chega a quase 40% da população e tem o direito de estudar na língua que quiser.”

Vlad Andzeyev, de 25 anos, acredita que o russo deveria se tornar a segunda língua oficial da Letônia.

“A Letônia não é uma terra só de letões”, afirma o estudante.

“Nós somos quase metade da população. Não somos invasores.”

Vlad Tkadhenko
“Tire as mãos das escolas russas”, diz camiseta usada por Vlad Tkadhenko
Ele completa: “Por que os albaneses na Macedônia têm direito de estudar na língua deles e nós, russos na Letônia, não temos?”

Uso político?

Para Evija Papule, chefe do departamento de integração do Ministério da Educação e Ciência da Letônia, é preciso distinguir o aspecto professional do aspecto político da questão.

Ela diz que, até o início dos protestos, a maior parte dos pais, alunos e escolas pareciam concordar com a medida, mas os sinais de reprovação agora são mais fortes.

Para Letônia e Estônia, fazer do russo uma língua oficial não é uma opção.

“Uma medida dessas significaria que, nas empresas, nos hospitais, nós poderíamos empregar apenas pessoas fluentes em estoniano e russo”, diz o presidente estoniano, Arnold Rüutel.

“Isso era uma obrigação nos tempos soviéticos. Você acha que nós deveríamos voltar a esse tipo de situação?”

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