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Atualizado às: 09 de abril, 2004 - 18h28 GMT (14h28 Brasília)
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Fotógrafa brasileira relata dia-a-dia em Bagdá 'ocupada e em guerra'
Marina Passos
Marina Passos está em dúvida se continua no Iraque depois de julho
A fotógrafa brasileira Marina Passos, 27, chegou a Bagdá em novembro do ano passado em um contrato de seis meses como editora de fotografia da agência de notícias France Presse (AFP).

Desde então, a crise no Iraque não parou de se acirrar e hoje, segundo a fotógrafa, está no pior estágio desde que ela chegou.

O medo de carros-bomba passou a ser secundário diante das ameaças de batalhas que podem começar a qualquer momento.

Confira abaixo o depoimento que Marina Passos deu à BBC Brasil sobre o seu dia-a-dia no Iraque.

'País em guerra'

"Estou aqui há cinco meses e posso dizer que a situação piorou muito desde novembro. Quando cheguei, não encontrei um país em guerra, mas um país ocupado e em reconstrução.

Agora estou vivendo num país ocupado e em guerra.

Com tiro a gente já se acostumou. Sempre tem tiroteio. Todo homem no Iraque tem uma arma e eles são sangue quente.

Só que agora é bombardeio de grosso calibre que é tão forte que acorda a gente de noite.

Acho que as coisas mudaram no sentido que todo mundo está sentindo o conflito.

Antes, o medo era de carro-bomba. Agora é mais de batalha, de ficar no meio de uma emboscada ou até ser confundida pelos americanos como guerrilheira. É imprevisível.

Normalmente, a gente saia à noite para jantar, para ir aos escritórios de outras agências, outros fotógrafos.

Ontem (quinta-feira) à noite, por exemplo, eu quis sair, mas fui proibida pelo meu chefe.

Medo

Hoje tenho medo de sair na rua sozinha, de madrugada. Isso porque a gente não tem segurança, saímos só com motorista local.

Mas acho que a gente (a imprensa) ainda não é alvo. É diferente das pessoas que estão diretamente trabalhando com a coalizão.

A história como a dos japoneses que foram seqüestrados é muito pontual. Não está existindo ameaça direta.

Também ajuda o fato de eu ser morena, tenho sangue libanês. Posso passar por uma fotógrafa de algum país árabe. Colegas louros de olhos azuis encontram muito mais dificuldades.

Também ajuda o fato de eu ser mulher. Como disse um amigo, os belos olhos ajudam em diversas situações.

Mas ainda acho, em geral, que não somos visados. Por incrível que pareça, os americanos são mais hostis, sempre gritando 'no picture, no picture' quando nos vêem.

Ameaça americana

Ouvi diversos relatos de tropas americanas confiscando máquinas, deletando fotos dos disquetes.

Por outro lado, hoje (sexta-feira), um colega foi avisada por uma milícia iraquiana de que iria haver um ataque a um comboio americano.

Eles disseram: 'fica aí mais 15 minutos que você vai ver um show e vai tirar muita foto. Eles ficaram e voltaram com fotos fantásticas, um furo de reportagem'.

Por isso, acho que o que mais mudou nas últimas semanas foi a quantidade de trabalho. Estou trabalhando quatro vezes mais do que um mês atrás.

Há um mês, a gente tinha mais tempo para fazer features (reportagens mais humanas). Agora não.

Tristes

Hoje (sexta-feira), fiz um depois de muito tempo, sobre o sentimento das pessoas no Iraque depois de um ano de ocupação.

E o sentimento é triste, eles dizem que está pior do que com o Saddam Hussein.

Um iraquiano me mostrou um prédio destruído em frente ao nosso escritório e me disse: 'na época do Saddam, esse prédio já teria sido reformado. Está tudo abandonado'.

Com tudo isso, estar aqui sempre foi o meu sonho. Eu queria ser jornalista, trabalhar fora. Mas, nunca imaginei que fosse cobrir uma guerra."

Claro que tenho medo de estar aqui, mas é um medo pontual, que não está presente o tempo todo no dia-a-dia.

Fico com certeza até o fim de julho, quando expira o meu contrato, mas já tenho minhas dúvidas se assinaria outro contrato aqui.

Penso que pode existir um momento em que eu possa ser obrigada a ir embora porque pode acontecer alguma coisa, e a imprensa não vai mais poder trabalhar.

Ou porque eu não agüente mais. Não dá para saber que reação vou ter em uma situação de muito medo.

Se vir uma explosão, a morte de nenhum colega. Mas espero não ter de passar por isso."

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