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Não tenho lágrimas
Eu posso estar enganado, mas parece que vocês andam chorando demais. Peço desculpas por chamá-los de “vocês. Na verdade, eu deveria me incluir na história, apesar da distância, e dizer “nós”, já que não há nenhum motivo para eu repudiar minha nacionalidade. O que não significa que eu, para me manter em forma auriverde, como um jogador de futebol, não cante debulhado em lágrimas, ao menos uma vez por semana, o Hino Nacional. Aí dei um carrinho desleal na minha segunda atual implicância. O Hino Nacional. Nós o estamos cantando demais. Tenho algo contra o popular Virumdum (estarei sendo desrespeitoso?)? Tenho. Acho longo, desinteressante e a letra de uma tristeza ímpar. Não perdôo terem me obrigado durante tanto tempo a decorar e cantar tanta tolice. As margens Desde muito cedo, tive que ouvir do Ipiranga (na época com Y) às margens plácidas sem ninguém para me auxiliar com o raio dessa crase. Eu poderia dizer, em bobo jogo de palavras que tantos eram os hinos a cantar no colégio que era de chorar. Isso foi até o “Acabou Chorare”, com os Novos Bahianos. Aí decretei minha independência e a liberdade abriu as suas asas sobre mim – na chuva e na tempestade. Acabaram os hinos. Da Bandeira, da Independência, do Expedicionário. Chorar? Só de pinho empunhado em seresta ou pulando no carnaval com odalisca coxuda. Fato é que, na semana passada, as folhas brasileiras me informaram que o ministro José Dirceu, da Casa Civil, chorou ao se encontrar em Cuba com o velho ditador Fidel Castro. Nosso bom Dirceu foi um dos 15 libertados quando do episódio do seqüestro do embaixador americano no Brasil, em 1968. Lágrimas de bolero Morou dois anos na ilha caribenha e não entendeu que lágrimas só ao ouvir certos boleros. Ah, sim. Fidel não o reconheceu. Em Brasília, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, na mesma semana, chorou duas vezes. Tudo culpa dos transgênicos da Monsanto. Primeiro, chorou na quarta-feira quando a multi recebeu a gostosa licença para o plantio da soja transgênica. Depois, no sábado, por ocasião de uma manifestação de apoio do Movimento dos Sem Terra em frente a seu gabinete, quando ganhou flores, cantou o Hino Nacional (todo? É barra) e, aí então, chorou, encontrando ainda tempo para gritar, na certa aos soluços,“Viva Chico Mendes!” Governar não é só abrir estradas. É manter a linha e não cantar em hora de trabalho. |
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