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Atualizado às: 26 de setembro, 2003 - 14h56 GMT (11h56 Brasília)
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Os homens do outono


Desta vez, o outono chegou mesmo. Atrasado, sem graça, algo trôpego, o jeito malandro de quem andou fazendo besteira.

O outono chegou e, como se pedindo desculpa, entrou logo na linha: mais de cinco dias seguidos picando 18º C, sol firme, tempo seco.

Em seu torno, as folhas vão caindo pela cidade inteira e pode-se escolher entre cantarolar Dolores Duran ou Jacques Prévert.

Com o outono, chegam os homens da estação, que, todo setembro, somos obrigados a enfrentar e a eles dar uma pequena fortuna. São muitos os homens de outono.

Há o homem da calefação, que promete vir na primeira oportunidade para a manutenção de nosso sistema, a fim de evitar bolo maior no auge do inverno.

A primeira oportunidade, depois de 45 minutos no telefone, sendo jogado de uma espera para outra, é daqui a 3 semanas, porque ele anda muito ocupado.

Afinal, é outono. Combinado o dia, não há hora certa para o homem da calefação. Ele vem entre onze da manhã e cinco da tarde. Um dia de trabalho (nosso) perdido.

Há o homem da limpeza das janelas. Esse marca o dia e a hora de nossa conveniência. Mas sabemos que vai fazer uma porcalhada danada e, a cada ano, cada janela é mais cara.

Há o homem da lavagem do carpete. Esse é batata: pelo menos um aposento será arruinado. Qual deles, esse ano, a única dúvida.

Há os homens que, de tantos em tantos anos, dependendo da casa onde vivemos – ou compramos ou arrendamos –, vêm para pintar a fachada, conforme, com toda a razão, o distrito onde se mora exige que se faça.

Lá se vai mais dinheiro, lá vem a convivência com o andaime: entrar na cozinha de manhã e dar com aqueles estranhos espiando você preparar o Nescafé.

Há os homens anônimos que, como nas telenovelas, se limitam a fazer uma espécie de figuração outonal.

São a cara escarrada da estação, há em suas almas sempre um vento fininho soprando e são indispensáveis para a cor local da cidade e de nossa alma.

Há, finalmente, o homem do outono que habita todos que vivem em um país com quatro estações definidas. Ele tem mil coisas a limpar, pôr em ordem, guardar ou jogar fora. Está sempre deixando para o ano que vem.

O outono, afinal, é a melhor estação para se deixar tudo para depois, uma vez que, logo depois dele – tremamos –, vem o inverno.

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