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Mudanças
Setembro e a Inglaterra ardem: 27º C. As chuvas não vêm, as folhas das árvores não caem. O outono costumava chegar na manhã do dia 15, e todas as árvores iniciavam simultaneamente seu strip-tease de folhas, e corria-se para tirar os suéteres das gavetas. Não mais. Efeito estufa ou arma de destruição em massa, nada mais está claro neste país, onde a previsibilidade era um de seus grandes charmes. Greve, por exemplo. Desde que os sindicatos foram obrigados por lei a só entrar em greve após consulta eleitoral a seus membros, ninguém deixou de entrar em greve. De repente, os carteiros vão e votam contra a greve. Repito: contra a greve. Impressionante também a recepção dada ao mágico americano David Blaine. Em primeiro lugar, inglês gosta de americano (perguntem a qualquer iraquiano). Em segundo lugar, inglês é vidrado em mágico. David Blaine trabalha com um tipo de mágica dificílima: aquela em close-up, nas suas barbas. Informal, usa apenas calça escura e camisa de manga curta. Verdade que, de repente, lá pelos Estados Unidos, deu para se promover de maneira menos mágica: primeiro ficou de pé no alto de uma coluna durante dois dias e duas noites, depois enfiou-se por 61 horas dentro de um bloco de gelo em plena Times Square. Agora, em Londres, dentro de uma caixa de plástico suspensa perto do Rio Tâmisa, pretende ficar sem comer durante 44 dias. Tudo que tem é um sistema de tubos que lhe fornece a água para o consumo básico e um esquema para eliminar suas necessidades íntimas, que, de jejum, é só número um e nada de número dois. E não é que os londrinos cismaram com o homem? Jogaram cachorro-quente na sua cela, fizeram churrasco embaixo, nela atiraram batata e outros gêneros alimentícios. Outro dia, um helicóptero ativado por controle remoto tentou tentá-lo com um hambúrguer e fritas. Mais: um camarada tentou cortar seu suprimento de água. Ficar vendo um cara numa caixa plástica transparente não é a coisa mais emocionante do mundo. Mas vamos com calma, londrinos! Não precisa matar. Sem mágicas, mesmo as mais sem graça, o mundo estaria perdido, se perdido já não está com esse verão extra que aqui nos coube. |
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