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Atualizado às: 22 de setembro, 2003 - 11h18 GMT (08h18 Brasília)
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Excessos de Isabel


Há uma velha música do chansonnier francês Charles Aznavour em que 90% da letra é a repetição do nome próprio feminino Isabelle.

Durante os três minutos do fonograma, Aznavour empresta as mais diversas inflexões ao nome: paixão, ternura, ironia, todas aquelas coisas que, pelo menos no mundo da música popular francesa, passam pela mente, coração e boca dos amantes franceses apaixonados ou prestes a se desapaixonar.

Semana passada, eu me lembrei da Isabelle, do Aznavour, vendo e lendo na mídia (principalmente na televisão) a respeito da Isabel dos americanos.

Durante alguns dias, foi impossível ligar a TV sem dar com um correspondente, ou meteorologista especialmente enviado, explicando o que era, como funcionava e o que deveria acontecer com o furacão Isabel que, conforme é de praxe com os furacões, assolou (este o verbo) a costa leste dos Estados Unidos, pegando vários Estados que o mundo e os ingleses conhecem de cinema.

Isabel inclusive ameaçou a capital do país, que – fui forçado a saber – foi inteiramente reconstruída sem empregar madeira depois que os ingleses a incendiaram em 1812, durante a guerra da independência.

O presidente Bush foi obrigado a abandonar seu local e cidade de trabalho e decretou o que poderíamos chamar de “ponto facultativo.”

Ali por aquela zona, os furacões têm a curiosa tendência de, na hora agá, se desviarem e baixarem suas fúrias em gente que já vive atolada em problemas.

O Haiti e o México são peritos em acabar levando na testa a azeitona climatérica destinada aos Estados Unidos.

Por uma vez, Isabel (e não Elizabeth e talvez por isso mesmo) preferiu se espalhar pelo grande irmão do norte, como se chamada para participar de um filme de Steven Spielberg.

Morreram pelo menos 17 pessoas e desde já minhas condolências.

Só quero saber por que tanto fuzuê em torno de Isabel se só neste ano, na baía de Bengala, mais de mil pessoas morreram em consequência de monções.

Em Bangladesh, no momento, meio milhão de pessoas estão desalojadas em consequência de enchentes.

Quase nada na imprensa ou na tevê.

Se um furacão chamado, digamos, Rosiclér ameaçasse o nordeste brasileiro, os britânicos tomariam conhecimento?

Tenho minhas dúvidas.

Já as operações que eles chamam de tempestade no deserto, essas dão para ser divulgadas com alarde.

Quer dizer, um alarde meio controlado, mas mesmo assim alarde.

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