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Atualizado às: 17 de setembro, 2003 - 15h04 GMT (12h04 Brasília)
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Arremesso do celular


Eu também ingressei no mundo do celular.

Feito a Rainha Elizabeth, que os jornais outro dia mesmo estavam anunciando ter adotado o ubíquo aparelhinho. Feito metade das pobres das crianças da Grã-Bretanha.

Ingressei no sentido de que passei a ter um relacionamento mais íntimo com o fabuloso engenho.

De cara, vou admitindo: eu odeio celular.

O telefone, o tradicional, aquele do Graham Bell inaugurado, dizem, por D. Pedro II, o telefone, aquele que era negro como no samba de Herivelto Martins e que até uma certa hora não tocara – o telefone, dizia eu, já me era ligeiramente odioso.

Andei fazendo umas contas e cheguei à conclusão de que, em pelo menos meio século de experiência com a diabólica invenção comunicativa, nunca dei mais que seis telefonemas úteis tendo recebido igual número.

O resto – todas as outras conversas – era tudo besteira, absolutamente dispensável, encheção de lingüiça, pura solidão. Nada mais só do que uma pessoa ao telefone.

Quanto ao celular então… Pura inutilidade. Coisa que não se pode dizer da máquina de escrever ou da de lavar roupa. Esses são instrumentos nobres.

Mas vamos a meu ingresso no mundo do celular. Uns colecionam selos, outros moedas, eu passei a colecionar telefonemas celulares entreouvidos, já que todo mundo se fala, e aos berros, em todos os lugares do mundo: andando na rua, sentado no metrô, deitado na praia, mergulhando na piscina.

Eu bisbilhoto. Eu quero conferir a conversa. Eu quero saber se aquilo vale a pena mesmo.

Para ser franco, eu acho que celular só é útil para corretor imobiliário, vendedor de crack e mulher da vida. Mas isso deve ser maldade e burrice minha: o peso dos anos leva-me a me curvar como um burro de carga.

De qualquer forma, fiquei satisfeito de saber que não estou sozinho.

Mês passado, pelo quarto ano consecutivo, na pequena ilha de Riihisaari, na Finlândia, próximo à fronteira com a Rússia, realizou-se o arremesso do celular, do qual só participaram gente de minha estirpe, categoria e, claro, admiração.

Venceu um ucraniano que conseguiu a extraordinária marca de 93 metros.

Infelizmente, o arremesso é só do aparelho, sem o operador. Não tem importância. Um dia, nós, luditas, chegamos lá.

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