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Atualizado às: 18 de agosto, 2003 - 12h51 GMT (09h51 Brasília)
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Novos empregos aliviam efeitos da crise argentina

Fila de argentinos
Cerca de 700 mil empresas têm empregados sem carteira assinada

O engenheiro mecânico argentino Guillermo Hourcades, de 41 anos, casado, pai de duas filhas, voltou a ser contratado no início do ano, após viver de "bicos" durante quase dois anos.

Com mestrado em produção industrial, Guillermo trabalhava numa indústria de autopeças, que demitiu pessoal ao ser arrastada pela crise argentina, em 2001.

Hoje, Guillermo é gerente industrial da fábrica de tecidos Fibraltex, responsável por 20% da produção nacional de jeans.

O retorno de Hourcades ao mercado de emprego argentino é um exemplo mudança que está ocorrendo na economia do país.

Um dos principais analistas do mercado de trabalho argentino, o economista e sociológo Ernesto Kritz, da Sociedade de Estudos Trabalhistas, diz que o número total de empregados no país cresceu 5%, de acordo com dados oficiais, entre outubro de 2002 e maio deste ano. No entanto, Kritz afirma que nem tudo são flores.

"Entre 70% e 80% dos empregos criados a partir do ano passado são de má qualidade. Quer dizer, 'em negro' (informais), com salários mais baixos que antes e, naturalmente, sem proteção legal ou direito à Previdência Social", diz o sociólogo.

Informalidade

Ernesto Kritz revela que, das 900 mil empresas e negócios em geral existentes na Argentina, 700 mil – a maioria, pequenas lojas e cafés – têm empregados sem carteira assinada.

A média salarial de um trabalhador contratado, diz o sociólgo, é de 725 pesos.

Um funcionário informal que trabalhe a mesma carga horária recebe quase a metade, 425 pesos.

"Esses valores não permitem que a pobreza diminua no país", afirma Ernesto Kritz.

Segundo informações oficiais, o desemprego chegou aos 21,5% da população economicamente ativa em maio de 2002, quando bateu recorde histórico. Em outubro do ano passado, o índice de pessoas desempregadas caiu para 17,8%, e em maio deste ano para 15,5%

Mais de 50% dos argentinos vivem na pobreza.

Apesar disso, em entrevista à BBC Brasil, ex-desempregados, empregadores e especialistas concordaram que hoje a situação é "infinitamente" melhor que há um ano e meio, mas que ainda falta muito para o ideal.

De acordo com o economista Elvio Baldinelli, da Câmara de Exportadores, muitos investidores ainda estão esperando um momento ainda melhor para voltar a investir.

Pelas estatísticas locais, a condição de pobreza é constatada quando uma pessoa não recebe o suficiente para a cesta básica e para pagar os serviços básicos, como luz e gás, por exemplo.

De volta à ativa

"Trabalhei oito anos no ramo de autopeças, mas o setor entrou em bancarrota", conta Guillermo Hourcades, em meio à barulheira das máquinas reativadas na fábrica da Fibraltex, instalada na cidade de Ciudadela, na província de Buenos Aires, a 25 quilômetros da capital argentina.

"Hoje, depois de um período incerto, estou trabalhando outra vez por completo."

Guillermo é um dos 60 empregados contratados, nos últimos 11 meses, pela Fibraltex – uma indústria que chegou a fechar as portas e a colocar seus então 214 trabalhadores em férias coletivas durante 60 dias.

"Hoje, tenho uma satisfação pessoal ao ver as máquinas funcionando de novo", afirma o industrial Lázaro Azar, dono da Fibraltex, olhando para as máquinas que fabricam os fios dos tecidos.

Nos últimos 11 meses, ele aumentou seu pessoal em 30% para atender ao aumento também de 30% na produção, mas confessa estar preocupado com a "invasão" de produtos brasileiros que "ameaçam" as fábricas que voltaram a ser ativadas.

Por isso, conta o dono da Fibraltex, já pediram ajuda ao governo para evitar que a entrada de mercadorias brasileiras acabe colocando um freio na até agora frágil, como diz, recuperação econômica argentina.

"A produção mensal brasileira de tecidos é de 30 milhões de metros, equivalente à nossa produção anual. Portanto, a fabricação brasileira pode destroçar nossas indústrias a hora que quiser e, com isso, podemos ser obrigados a parar novamente", desabafa.

Sorte

Assim como o engenheiro Guillermo, a secretária Ana Barreiro, de 56 anos, também é uma ex-desempregada.

Depois de trabalhar 35 anos numa multinacional, ela foi demitida, há quase dois anos.

Neste ano, Ana voltou a trabalhar, mas ainda acredita que, no seu caso, devido a sua idade, foi mesmo sorte. "Apesar de eu também acreditar que as coisas estão melhorando", afirma.

"Não tenho dúvidas de que tudo está melhor, mas ainda estamos longe da produção que registrávamos antes da crise de 1997", diz o presidente da Federação dos Fabricantes de Tecidos, Alejandro Sampayo.

Segundo Sampayo, o setor cresceu 6% em um ano, mas ainda está 70% distante dos dados registrados antes da crise argentina.

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