|
| ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Para analistas, Paraguai cansou do descaso de Brasil e Argentina
As declarações do ex-ministro da Justiça e do Trabalho do Paraguai, José Burró, contra brasileiros e argentinos mereceram o repúdio de analistas paraguaios. Eles reconheceram, no entanto, que as autoridades do país já estão "cansadas" de não ser ouvidas pelos seus principais sócios no Mercosul, Brasil e Argentina. Segundo o sociólogo Enrique Chase, do Instituto de Comunicação e Arte, essa indiferença vem ocorrendo desde o fim da Guerra do Paraguai (1864-1870). José Burró pediu demissão depois de chamar brasileiros e argentinos de "sem-vergonhas", numa reação ao alerta do embaixador brasileiro no país, Luis Augusto de Castro Neves, para a falta de segurança jurídica no Paraguai. "Insultos" O sociólogo Enrique Chase e o cientista político José Luis Simón, do Centro Paraguaio de Estudos Sociológicos, discordaram dos "insultos" do agora ex-ministro, mas criticaram a forma como o Paraguai, assim como o Uruguai, seriam "ignorados" por Brasil e Argentina. Ouvidos pela BBC Brasil, os dois analistas reprovaram o que chamaram de "imperialismo" brasileiro e argentino e lembraram que hoje o país não é o único do bloco a ter problemas de polícia. "Infelizmente, o Paraguai tem sido o principal território para contrabando e lavagem de dinheiro, entre outras irregularidades, mas o crime organizado é um problema no Brasil e a cúpula policial argentina (investigada por atos de corrupção), uma dor de cabeça", afirmou Simón. "Se não nos unirmos, a coisa será mais complicada. Mas que esta união seja com diálogo e diplomacia e não com agressões verbais", disse o cientista político. Para ele, existe um "sentimento" na sociedade paraguaia e entre autoridades do país de que os governos do Brasil e da Argentina "não jogam limpo" com o Paraguai. "Diante de tudo isso, é claro que hoje sofremos um problema de baixa estima, e meu medo é que chegue o dia em que não se queira continuar como sócio do Mercosul, o que seria um erro grave", declarou José Luis. Pressão histórica Segundo Enrique Chase, o Paraguai sofre "uma forte pressão histórica do Brasil e da Argentina", desde a Guerra do Paraguai, ou Guerra da Tríplice Aliança - que começou por iniciativa do marechal paraguaio Francisco Solano López e terminou com o Brasil, a Argentina e o Uruguai lutando pela destruição do então próspero Paraguai. "Para nós, os dois países são duas grandes potências. E aqui os embaixadores do Brasil e da Argentina são mais importantes até do que o embaixador dos Estados Unidos. O imperialismo, portanto, não é americano", afirmou Enrique Chase. Ele recordou que o ex-ditador Alfredo Stroessner, que esteve 35 anos no poder, soube negociar com os vizinhos na construção das hidrelétricas de Itaipu, com o Brasil, e de Yaciretá, com a Argentina. "Ao longo da história, porém, o Paraguai, por seu tamanho e pela produção, foi ouvido em pouquíssimas ocasiões. O Uruguai também sempre esteve submetido à influência dessas duas potências", reclamou Chase. Ele reconheceu, no entanto, que os paraguaios sentem mais afinidade com o Brasil, seja pela presença dos chamados "brasiguaios", nascidos e criados na fronteira, ou pelos investimentos dos empresários e agricultores brasileiros no país vizinho. Muitos dos 5,5 milhões de habitantes do Paraguai falam português, já moraram no Brasil e chegam a torcer pelo futebol brasileiro. Novo presidente No próximo dia 15, o atual presidente, Luis González Macchi, passará a faixa presidencial ao seu sucessor, Nicanor Duarte Frutos. A esperança de José Luis Simón e Enrique Chase é que Nicanor mude o rumo desta relação com o Brasil e a Argentina, já que, acreditam os analistas, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Néstor Kirchner têm demonstrado "maior interesse" em ampliar o diálogo com os sócios menores do Mercosul. "Os nossos parceiros econômicos devem entender que somos pequenos, mas necessários, e que temos opinião. O Mercosul sofreria uma grande perda se o Paraguai e o Uruguai decidissem não integrar mais o bloco", desabafou José Luis Simón. "Mas nada disso justifica os insultos do ex-ministro Burró. Até porque o que disse o embaixador Castro Neves é o mesmo que nós pensamos, que há falta segurança jurídica no Paraguai. O nosso problema, porém, é que enquanto os governos brasileiro e argentino estão tentando resolver seus problemas, não vemos aqui o mesmo tipo de atitude", concluiu o cientista político. |
| ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||