|
| ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Criminalidade cresce e assusta argentinos
Os crimes em geral cresceram 166% na Argentina nos últimos 11 anos, de acordo com levantamento realizado pelo Centro de Estudos União para a Nova Maioria a partir de dados oficiais. O cientista político Eduardo Ovalles, diretor de pesquisa do instituto, autor de um estudo sobre a situação no país, disse à BBC Brasil que os seqüestros e a presença de crianças, adolescentes e mulheres na criminalidade foram as maiores surpresas do levantamento. Em 1992, segundo o cientista político, eram praticados 1.341 delitos por dia, incluindo assaltos, roubos a residências, seqüestros e homicídios. Hoje, o número subiu para 3.574. Neste ritmo, estima-se que a Argentina feche o ano com 4.088 casos denunciados a cada dia. Os seqüestros, segundo o levantamento, passaram a ser freqüentes a partir de janeiro de 2001, com um caso registrado a cada semana. Alvos No ano passado, já era registrado um seqüestro a cada 36 horas. No primeiro semestre deste ano, ocorreu um a cada 48 horas. "Os jogadores de futebol e seus familiares passaram a ser o alvo preferido dos seqüestradores. A cada mês e meio, seqüestram ou tentam seqüestrar um deles", afirmou. "O medo é tanto que, na semana passada, mesmo acompanhado por um segurança, o jogador Batistuta, que mora na Europa, foi flagrado aqui com uma arma. Cada um está se defendendo como pode", disse Ovalles. O cientista político revela que em 1997, um ano antes do início da recessão no país, eram presos quatro menores de idade por dia na Argentina. Hoje, são 18. Recentemente, foi divulgada a história da adolescente Silvana, de 15 anos, presa por comandar uma quadrilha de homens mais velhos do que ela e que já tinha realizado dez seqüestros. "Na Argentina, os crimes cresceram com a última crise política e econômica. Neste período, acompanhando o que ocorre no mundo, também mudou aqui o papel da criança nas famílias. Em muitos casos devido ao desemprego dos pais", comentou Ovalles. Ainda de acordo com o Centro de Estudos União para a Nova Maioria, de 1994 até o ano passado, a população feminina nos presídios subiu 600%. "Sete em cada dez mulheres foram presas por envolvimento com venda de drogas", afirmou o especialista. Assalto No domingo, o secretário de Cultura do governo argentino, Torcuato Di Tella, foi assaltado por um grupo de menores, com idades entre 12 e 14 anos, quando tentava mostrar uma "villa" (favela), no bairro turístico da Boca, a seus dois filhos e a uma sobrinha. "Eu queria apresentar-lhes uma outra Argentina e acabei conseguindo. O terrível foi ver aquelas crianças armadas", contou o secretário. O ministro estava no carro oficial. Os assaltantes preferiram ficar com seu dinheiro e um casaco. Nos últimos dias, dois advogados de um mesmo banco europeu, com base no país, foram vítimas do chamado seqüestro express. São seqüestros relâmpagos que consistem em levar a pessoa a um cativeiro enquanto a família tem, no máximo, dois dias para conseguir o resgate. Histórias não faltam e nem o caso chega ao conhecimento da polícia. Pacote Diante de tantos casos - muitos marcados pela violência física, como socos, pauladas e pontapés - o presidente da Argentina, Néstor Kirchner, conseguiu que o Congresso aprovasse um pacote de leis contra os seqüestros. As leis estavam paradas há quase um ano no Parlamento e autorizam os procuradores a dirigir a investigação do caso, podendo invadir o possível cativeiro, mesmo sem autorização do juiz. O objetivo, segundo o governo, é dar agilidade para o resgate da vítima. Ao mesmo tempo, o ministro da Justiça, Gustavo Beliz, anunciou há menos de duas semanas um pacote com 40 medidas, com as quais pretende reduzir a insegurança pública. Simultaneamente, o governador da província de Buenos Aires, Felipe Solá, demitiu a cúpula da chamada Polícia Bonaerense - cuja má imagem de corrupção levou à criação de um filme com seu nome. A província de Buenos Aires representa 38% do país e 26% dos crimes são registrados nesta região. A iniciativa oficial de combate ao crime corresponde às expectativas dos argentinos. Pesquisa de opinião, realizada por Graciela Romer & Associados, informa que a insegurança pública é hoje o que mais preocupa os que vivem na capital argentina, Buenos Aires (64%). Segurança Curiosamente, a capital, local mais conhecido pelos turistas brasileiros, ainda é considerado um "paraíso de segurança" em relação às principais capitais da América Latina. Os portenhos ainda usam joiás nos ônibus e freqüentam praças abertas, mais cada vez mais policiadas, a qualquer hora do dia e da noite. Na pesquisa de opinião, o desemprego, aparece em segundo com 38% das respostas dos 700 portenhos entrevistados. Atualmente, os jornais e as emissoras de rádio e de televisão, dão destaque para atos de violência em geral, como a morte de 31 policiais este ano - um recorde. E ainda para soluções encontradas por cada um para tentar se proteger. Os exemplos mostrados vão desde as aulas de tiro que comerciantes no balneário de Mar del Plata estão frequentando, até a cruzada solitária de uma professora aposentada contra o crime. Aos 76 anos de idade, Lidia Ortiz de Burry, gasta suas economias comprando armas nas favelas para depois destruí-las. Já comprou e queimou 350 delas. "A delinqüência não é privilégio da Argentina, diz a professora. No entanto, um fenômeno que representa hoje a maior ameaça a paz na América Latina. O delito se transformou numa ameaça geopolítica para os Estados e simboliza a fragilidade das instituições", definiu Eduardo Ovalles. "Por isso, as medidas do presidente Kirchner, se bem aplicadas, poderão representar uma boa saída. Até aqui, nenhuma autoridade tinha falado a sério sobre isto", finalizou Ovalles. |
| ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||