BBCParaAfrica.comNews image
Brasil
Espanhol
Francês
Swahili
Somali
Inglês
Outras línguas
Última actualização: 07 Junho, 2006 - Publicado em 23:33 GMT
E-mail um amigoVersão para imprimir
Êxodo para a Europa Ocidental

Mbour é uma pequena vila senegalesa a cerca de 100 quilómetros de Dakar, onde representantes de 30 países europeus e africanos estão reunidos numa conferência internacional a debater a questão da migração.

A baía de Mbour
A vibrante baía de Mbour, de onde partem muitos dos migrantes

Este porto pesqueiro tornou-se internacionalmente famoso nos últimos meses depois de largas centenas de jovens de países da África Ocidental terem começado a usá-lo como ponto de partida para tentar chegar à Europa por via marítima.

Mbour nunca antes havia sido associada à emigração ilegal.

Há muito que a localidade é conhecida como um destino turístico devido à sua proximidade da estância de Saly, com as suas belas praias, temperaturas amenas e luxuosos hotéis, e há séculos que depende da pesca.

Mas agora a nova geração acredita ter descoberto uma maneira melhor e mais rápida para encontrar dinheiro.

 Se tiver a oportunidade, volto a tentar... mesmo amanhã. Se me disserem 'aqui está um barco pronto a partir', eu embarco
Migrante não identificado

Em vez de passar semanas a fio em alto mar a pescar, um recurso que dizem estar a escassear, muitos jovens de Mbour estão a partir para as Ilhas Canárias.

Só este ano mais de 7 mil e 500 migrantes chegaram às Canárias, na esperança de atingir a Europa continental.

Prisão

A polícia senegalesa diz que o fenómeno ganhou verdadeira popularidade no início de Maio, mas potenciais emigrantes dizem que esta perigosa rota começou a ser usada em finais de 2005, ou pelo menos no início de 2006.

Migrantes senegaleses
Milhares de senegaleses continuam a partir para as Ilhas Canárias

O primeiro grupo foi detectado pela polícia a 18 de Maio, depois de uma denúncia.

“Na praia encontrámos 21 pessoas, que foram presas, incluindo o proprietário do barco, que era igualmente o organizador da viagem”, explicou o Comissário de Polícia de Mbour, Modou Diagne.

Nenhum dos detidos tinha passaporte ou qualquer outro tipo apropriado de identificação, disse Diagne.

“Mais de 2 milhões de Francos CFA (3 mil e 900 dólares) foram confiscados ao proprietário da embarcação”.

 Toda a gente estava a dizer que em Espanha havia empregos e dinheiro para ganhar
Diatou Sene

Ele foi sentenciado a 6 meses de prisão; as restantes pessoas foram condenadas a 2 meses de detenção.

Mas nem essas detenções nem os esforços das autoridades espanholas para interromper a contínua chegada de migrantes – ou mesmo as centenas de pessoas que morreram nesta perigosa viagem – servirão para dissuadir os jovens africanos.

A intervenção das autoridades espanholas e senegaleses apenas serviu para que os potenciais migrantes sejam mais discretos em relação aos seus planos – mas não em relação ao seu desejo de partir para a Europa.

Destroços

No início deste ano, um homem com pouco mais de 30 anos, que me pediu para não ser identificado por recear poder vir a ser detido, tentou a travessia para as Ilhas Canárias.

Diatou Sene
O filho de Diatou Sene foi preso quando partia para as Canárias

Ele e 32 outras pessoas não foram bem sucedidos e passaram 4 dias em alto mar depois do barco se ter danificado.

“Graças a Deus, conseguimos regressar a Mbour, porque éramos todos pescadores e conhecíamos o mar”, disse o homem, acrescentando que a experiência deixara-o mais determinado que nunca.

“Se tiver a oportunidade, volto a tentar... mesmo amanhã. Se me disserem: ‘aqui está um barco pronto a partir’, eu embarco”.

Assane Sow, de 31 anos de idade, teve menos sorte. Ele estava entre os detidos pela polícia em Maio quando tentava fazer a travessia para as Ilhas Canárias.

A sua família responsabiliza o governo senegalês por não providenciar empregos e por não respeitar o direito das pessoas partirem à procura de empregos noutros sítios.

“Ele não cometeu qualquer crime. Ele é carpinteiro mas não consegue fazer dinheiro”, disse a mãe de Assane, Diatou Sene, que aguarda ansiosamente pelo libertação do filho.

 É realmente um problema. Eles precisam de empregos – bem remunerados – para ficarem aqui no Senegal
Magette Diop, autarca de Mbour

“Toda a gente estava a dizer que em Espanha havia empregos e dinheiro para ganhar. Todos os seus amigos também se iam embora. Ele decidiu voluntariamente arriscar e concordámos com a sua decisão”.

Tal como Assane Sow, muitos outros jovens com quem falei também estavam preparados para deixar as suas famílias de forma a ajudá-las a longo prazo.

Pape Faye, um futebolista que encontrei no estádio de Mbour, sonha em continuar a sua carreira um dia na Europa.

Ele está desesperadamente a tentar ajudar os pais e já tem um amigo que conseguiu chegar à Europa.

“A única saída para mim é abandonar este país”, diz ele.

Êxodo

As autoridades senegalesas admitem haver um problema sério, mas alegam estar a fazer todos os esforços para controlar a situação.

Imigrante ilegal nas Ilhas Canárias
O futuro é incerto para os que conseguem fazer a travessia

“Assistimos a um verdadeiro êxodo, especialmente de jovens, muito antes do início deste fenómeno de migração por via marítima”, disse Magette Diop, do concelho de Mbour.

Ele disse que um fundo criado para a promoção de empregos para os jovens e para as mulheres haviam já financiado mil e 200 projectos.

Contudo, para Magette Diop, continuava a ser da responsabilidade do governo a criação de postos de trabalho para os jovens senegaleses.

“Tudo o que podemos fazer a nível municipal é ajudar com pequenos projectos. Os jovens precisam igualmente de ser imaginativos. É realmente um problema, e eles precisam de empregos – bem remunerados – para ficarem aqui no Senegal”.

A conferência de Dakar, que juntou representantes de cerca de 30 nações africanas e europeias, espera que o seu plano de acção conjunta lide com a crise através do desenvolvimento para encorajar os jovens africanos a permanecer no continente.

Mas o seu plano será formalmente adoptado numa conferência sobre migração, que se realiza em Julho em Marrocos, e muita gente em Mbour não está disposta a esperar.

Eles sentir-se-ão certamente encorajados pelas palavras do Ministro senegalês do Interior, Ousmane Ngom, que disse há dias que a emigração era imparável porque “continuava a ser um motor da história”.

LINKS LOCAIS
LINKS EXTERNOS
A BBC não é responsável pleo conteúdo de sítios externos da internet
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
E-mail um amigoVersão para imprimir
BBC Copyright Logo
^^ De volta ao topo
Arquivo
BBC News >> | BBC Sport >> | BBC Weather >> | BBC World Service >> | BBC Languages >>