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África ainda sofre com fuga de cérebros | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Estima-se que a cada ano cerca de 20 mil profissionais qualificados deixam a África em busca de melhores condições de trabalho nos Estados Unidos, Europa e Austrália. Enquanto 46 por cento da população da África sub-saariana vive com menos de um dólar americano por dia, o chamado fenómeno da “fuga de cérebros” apresenta-se ainda como um enorme problema sem aparente solução imediata. Se, por um lado, os mercados africanos não possuem condições de competir contra os atraentes salários e oportunidades disponíveis nos países do primeiro mundo, por outro, o seu próprio desenvolvimento depende em grande medida da manutenção de trabalhadores, cientistas e toda a sorte de profissionais qualificados dentro de suas respectivas fronteiras nacionais. O facto é que por diversas razões (que muitas vezes não envolvem unicamente questões monetárias, mas também de segurança ou estabilidade) muitos africanos altamente qualificados acabam por preferir sonhar com uma vida em além-mar. Tratam-se de imigrantes legais em sua esmagadora maioria. Segundo o Banco Mundial, muitas vezes a taxa de migração qualificada excede a desqualificada em 50 por cento, referindo-se ao que se passa em países como Cabo verde, Gâmbia, Maurícias e Serra Leoa. Neocolonialismo
O fenómeno da migração de certa maneira recrudesceu após os processos de independência que foram levados a cabo no pós-guerra, com muitos dos países europeus oferecendo facilidades para a imigração de quadros qualificados oriundos de suas respectivas ex-colónias. Este novo e pitoresco pacto colonial – que prevê a exportação deliberada de doutos da África para o primeiro mundo – é endossado pela Organização Internacional para a Migração, baseada em Genebra, que recomenda aos países centrais acolher estes quadros qualificados dentro de seu território e, vez por outra, encorajá-los a voltar à sua terra natal para “compartilhar” os seus conhecimentos. Por sua vez, o Banco Mundial também estima positivamente os resultados da imigração qualificada, argumentando que ela pode vir a suprir as demandas profissionais criadas pelas lacunas decorrentes das taxas de crescimento populacional negativas no primeiro mundo. Mas o argumento de que esse mesmo fenómeno, agora enquanto migração, é benéfico para o continente africano – teoricamente amenizando os resultados da superpopulação – é no mínimo surreal, pois significa aceitar o escape dos quadros qualificados – necessários ao desenvolvimento dos jovens estados ao sul do Mediterrâneo – e, ainda mais, brindá-lo como um grande feito. Falta de médicos A realidade é, como se pode perceber, bem mais cruel. A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que a África sub-saariana apresenta 24 por cento das baixas mundiais causadas por doenças, incluindo a SIDA, malária e tuberculose. Para fazer frente a esse problema, entretanto, a região possui apenas 3 por cento dos profissionais da saúde disponíveis no cenário mundial.
Enquanto isso, paradoxalmente, os países do primeiro mundo tornam-se cada vez mais dependentes de imigrantes provenientes de países africanos para preencher seus quadros na saúde. No Malawi, um país de 10 milhões de habitantes, um médico atende 50 pessoas, enquanto que a taxa em Inglaterra situa-se em torno dos 600 pacientes por médico. Na Zâmbia, igualmente, cada médico costuma atender em torno de 14 pessoas. Países de língua portuguesa Um relatório divulgado recentemente pelo Banco Mundial diz que 45 por cento dos moçambicanos com diploma universitário se encontram a residir no exterior. Dentre os países africanos com mais de 5 milhões de habitantes, Moçambique figura assim no segundo lugar, logo a seguir o Gana, país que possui 47 por cento de seus quadros diplomados a trabalhar no exterior. Após o Quénia, com 38 por cento, figura Angola, empatada com a Somália, dispondo de 33 por cento dos seus quadros residindo em outros países. Entre os países com menos de 5 milhões, desponta Cabo Verde em primeiro lugar, com 67.5 por cento. Os que retornam Muitos comemoram, entretanto, o retorno de alguns quadros qualificados de origem africana ao seu respectivo continente. Mas a natureza desse fenómeno é certamente bastante diferenciada daquela que se poderia pensar ingenuamente como sendo uma “fuga de cérebros às avessas”. A grande maioria dos africanos que voltam para o continente são quadros bem sucedidos no ocidente, que abandonaram suas posições de destaque para trabalhar directamente nos governos dos países de África. É o caso da recém eleita Presidente da Libéria, Ellen Johnson-Sirleaf, graduada em Harvard e ex-banqueira de Washington. Também do Ministro das Finanças da Nigéria, Ngozi Okonjo-Iweala, que abandonou seu cargo no Banco Mundial para integrar o governo do Presidente Olusegun Obasanjo. Igualmente é o caso do Ministro das Finanças de Malawi, Goodal Gondwe, que também abandonou o Banco Mundial. Alinhamento Compreensivelmente, estes quadros – que retornam ao continente como africanos extensivamente aculturados, após décadas de vivência nos meios financeiros do ocidente – tendem a colocar os seus países em alinhamento automático com as ortodoxias económicas dos órgãos que outrora representaram.
Não de outro modo, carregam a bandeira das reformas económicas apregoadas no ocidente após a falência dos estados de bem-estar social, reproduzindo quase de forma anedótica as fórmulas caras ao positivismo oitocentista de transplante do “progresso” ocidental aos meios ainda não tocados por suas luzes. A África parece agora engajada em um novo ciclo colonial, com a exportação de profissionais qualificados e, após algumas décadas, o retorno de alguns deles como figuras chave, porta-vozes do discurso, dos interesses, e da praxis pró-ocidental. | LINKS LOCAIS Conferência sobre 'fuga de cérebros'.23 Março, 2006 | Notícias Quadros da diáspora reunem-se em Luanda08 Novembro, 2004 | Notícias LINKS EXTERNOS A BBC não é responsável pleo conteúdo de sítios externos da internet | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
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