BBCBrasil.com
70 anos 1938-2008
Español
Português para a África
Árabe
Chinês
Russo
Inglês
Outras línguas
Atualizado às: 23 de janeiro, 2008 - 12h17 GMT (10h17 Brasília)
Envie por e-mailVersão para impressão
Produtos básicos são seguro do Brasil contra crise, diz ex-presidente do BC

Navio cargueiro
Exportação de commodities deve continuar em alta, diz economista
O economista Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e ex-presidente do Banco Central, diz que a exportação de alimentos e minério de ferro para a China deve manter as exportações brasileiras aquecidas mesmo com uma desaceleração da economia mundial.

“O Brasil está bem protegido”, diz Langoni, ao explicar que as commodities que o Brasil mais exporta, como alimentos e minério de ferro, devem continuar em alta mesmo com um crescimento menor.

A China, diz ele, mesmo se crescer menos ainda deve ter uma expansão de pelo menos 9%, o suficiente para manter aquecida a demanda por estes produtos.

Langoni afirma que o governo brasileiro tem razão em dizer que o país está protegido contra a crise por causa do elevado nível de reservas e de um crescimento a partir do mercado interno.

“O Brasil tem um impulso do ano passado, e só isso já garante um crescimento de uns 2%. É a expansão do crédito, o consumo, a construção civil, o investimento crescendo o dobro do PIB. Uma súbita parada em tudo isso é pouco provável”, afirmou em entrevista à BBC Brasil.

BBC Brasil – De que maneira a crise financeira nos mercados vai afetar o Brasil?

Carlos Langoni – Basicamente, é um fato que vai haver desaceleração. A dúvida é saber quão profunda. Por outro lado estamos vivendo hoje num mundo multipolar, em que o peso daqueles que eu chamo de superemergentes, China e Índia, aumentou muito desde a crise de 2001. A participação da China no mundo saiu de 4% em 2001 para 8% este ano. Já é um peso bastante relevante. Mesmo se a economia americana mergulhar em direção à estagnação, crescimento zero, e a China desacelerar de 11,5% para 9%, ainda assim a economia mundial vai permanecer positiva. O crescimento mundial vai cair de 4,8% para algo em torno de 3%, ainda longe de uma recessão. Para o Brasil, o grande teste foi ontem (segunda-feira). No meio daquela histeria, o risco-país foi a 250 pontos, o dólar ficou pouco acima de R$ 1,80. O que mostra que a economia brasileira hoje é completamente diferente de outras crises, como 2002 e final de 98, quando teve disparada do risco-país e desvalorização do real. Minha avaliação é que mesmo com a economia americana caminhando para estagnação, a economia brasileira vai absorver esse choque externo com muito mais eficiência do que no passado. Vamos crescer menos, em torno de 3% a 3,5%, mas ainda satisfatório. O câmbio, como o Brasil conta com um colchão de liquidez de mais de US$ 180 bilhões, quase igual à dívida externa de US$ 200 bilhões, deve interromper a valorização e ficar pouco acima de R$ 2,00, o que significa que não haverá muitas pressões inflacionárias pela via cambial, como no passado.

 Minha avaliação é que mesmo com a economia americana caminhando para estagnação, a economia brasileira vai absorver esse choque externo com muito mais eficiência do que no passado.

BBC Brasil – O Brasil não será afetado pelo crescimento menor de outro importadores de produtos brasileiros e exportadores mundiais, como a China?

Langoni – Sim, as exportações vão crescer menos, o saldo comercial deve cair de US$ 30 bilhões para US$ 20 bilhões. O preço das commodities pode se estabilizar ou mesmo cair, especialmente as metálicas. As commodities de alimentos subiram 50% em janeiro em relação ao ano passado, enquanto os metais subiram 5%. Provavelmente, com o desaquecimento da economia americana mundial, metais podem até cair, mas alimentos continuam.

BBC Brasil – E no Brasil, especificamente, que tipo de alimento e que tipo de metal?

Langoni – Neste aspecto, o Brasil está bem protegido. Alumínio vai sofrer, níquel pode sofrer, mas são exportações menores. O grande componente da exportação brasileira é minério de ferro, que deve ter um aumento expressivo este ano, porque continua com uma demanda extremamente aquecida. Depende principalmente da China, que continua crescendo, e é usado em construção. Os outros dependem da Europa, dependem dos Estados Unidos, são mais usados em automóveis e eletroeletrônicos.

BBC Brasil – Mesmo se a China crescer menos por conta dos Estados Unidos, ainda vai continuar crescendo o suficiente para manter aquecido este mercado?

Langoni – Acho que sim, porque a China sai de 11,5% para 9%. E a China depende muito menos hoje das exportações do que em 2001. O grande fator de expansão é o mercado interno. Há uma compensação que não havia no passado. Então no Brasil o superávit comercial, em vez de US$ 30 bilhões seria US$ 20 bilhões, o déficit em conta corrente em vez de US$ 5 bilhões pode chegar a US$ 10 bilhões, mas nada disso tem impacto no câmbio, que seria uma variável-chave, nem na percepção do risco-país. Tudo isso, se o governo continuar preservando a autonomia do Banco Central – e acho que o Copom vai manter a taxa de juros na reunião desta semana e ao longo de todo o ano.

 O Brasil tem um impulso do ano passado, e só isso já garante um crescimento de uns 2%. É a expansão do crédito, o consumo, a construção civil, o investimento crescendo o dobro do PIB. Uma súbita parada em tudo isso é pouco provável.

BBC Brasil – E é o que deveria fazer?

Langoni – Acho que sim, não há necessidade de mudar. E não há espaço para queda. E o governo tem que continuar comprometido com a austeridade fiscal. Tem que repetir pelo menos o superávit primário do ano passado, que deve ter ficado em torno de 4%, acima da meta. Isso é fundamental para continuar reduzindo a relação dívida-PIB. Se isso acontecer, o risco Brasil não vai mudar muito, os investimentos vão continuar, ainda que num ritmo um pouco menor.

BBC Brasil – Este dinheiro não pode secar?

Langoni – Não vai secar, porque a liquidez continua muito alta. Mas vai ficar mais seletivo. O que está havendo é uma restrição a financiamento, mas investimento direto são decisões tomadas já no ano passado. Na América Latina o país que vai mais sofrer é o México, pela proximidade com os Estados Unidos. O Brasil não, o Brasil é um global player, com exportações cada vez mais diversificadas. Vai ter uma queda, mas não é nada assustador.

BBC Brasil – O presidente Lula e o ministro (da Fazenda) Guido Mantega disseram com muita firmeza que o Brasil não vai sofrer o impacto da crise porque a economia está forte e o nível de reservas muito elevado. Dá pra dizer isso com esta certeza?

Langoni – Eu acho que sim. Se os Estados Unidos mergulharem numa depressão, com uma queda de 2%, 3%, o que não acontece há muitos anos, todo mundo vai sofrer. Mas o que todo mundo está falando é no máximo em uma estagnação. O Brasil tem um impulso do ano passado, e só isso já garante um crescimento de uns 2%. É a expansão do crédito, o consumo, a construção civil, o investimento crescendo o dobro do PIB. Uma súbita parada em tudo isso é pouco provável.

DólaresEconomia
Queda dos juros nos EUA pode segurar câmbio, diz consultor.
Quebra de 1929Economia
As lições aprendidas com as crises anteriores.
Bolsa de NYWall Street Journal
Medo de recessão se espalha além dos EUA, diz jornal.
Economia
Para analistas, pacote de Bush 'não ataca causas do problema'.
Luminoso com o índice Hang Seng em Hong KongCrise financeira
Contágio será limitado em emergentes, dizem analistas.
NOTÍCIAS RELACIONADAS
OCDE prevê crescimento forte para o Brasil
11 janeiro, 2008 | BBC Report
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
Envie por e-mailVersão para impressão
Tempo|Sobre a BBC|Expediente|Newsletter
BBC Copyright Logo^^ Início da página
Primeira Página|Ciência & Saúde|Cultura & Entretenimento|Vídeo & Áudio|Fotos|Especial|Interatividade|Aprenda inglês
BBC News >> | BBC Sport >> | BBC Weather >> | BBC World Service >> | BBC Languages >>
Ajuda|Fale com a gente|Notícias em 32 línguas|Privacidade