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Fantasmas de Natal | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Sim, vou ganhar meias. Talvez um suéter. Seguramente um vale para comprar ou livros ou discos. O Natal será comemorado, como de hábito, no almoço do dia 25 em casa. Presentes: a família. Eu, minha mulher, filha e marido. Mais a gata. Smudge. Gata vale. No Natal, ano inteiro. Não somos muitos. O que não é muito. O que é bom. Pelo menos, para meu gosto. Há uma pequena árvore artificial num canto, com luzes que mudam de cor o tempo todo, decoradinha e que a Smudge olha meio escabreada de longe. Está certa. O mundo é estranho e perigoso. Eu também desconfio de árvore de Natal. De tudo que tenha a ver com a data festiva. Desde guri. Minto. Gostei, por um ano ou dois, de presépio. Fazer, no canto de meu quarto, num décimo andar da avenida Atlântica, uma manjedoura com os devidos personagens. José, Maria, menino Jesus, reis Magos. Todos roubados. Ou vítimas de tentativa de roubo da loja “Lá em Casa Brinquedos”, sita à avenida Copacabana, entre Bolívar e Barão de Ipanema. Aonde eu comprava tábua de jacaré (difícil de afanar) e botão japonês de baquelite (esses davam para surrupiar dois ou três no bolso). Um pequeno espelho no meio da areia trazida da praia num balde completava a decoração. Uma folha da rua simulava palmeira. Tinha uma menina do sétima andar, Leila, se não estou enganado, que me ajudava. Leila passava as Festas, conforme se dizia, em Cambuquira, uma cidade que sempre foi e continua a ser um mistério para mim. Não me lembro de árvore de Natal em casa. Não combinava. Talvez daí minha estranheza diante desse Godzilla das árvores de Natal que atocham na lagoa Rodrigo de Freitas e morrem de achar lindo. Pobre vive vendo o bonito onde o bonito não está. Alucinações da fome e do analfabetismo? Não sei. Sei apenas que é coisa de pobre. Sendo grande, brilhante e caindo de enfeitado, pobre fica no maior agito. Significado do Natal Presente era bacana. Eu ganhava alguns. Sempre com o maior desprezo para o que fosse de vestir ou comer. Só valia coisa de brincar. Achei outro dia mesmo (deve ter uns 20 anos) aqui em casa, nesta cidade de Londres, uma carta minha enviada a Papai Noel. Eu pedia, e não me envergonho de dizer, uma bola de futebol, um time de botão, um revólver de caubói, um jogo de química que tinha na “Loja da Borracha” (entre os cines Americano – mais tarde Copacabana -- e Metro) que eu namorava adoidado. Uma das misturas químicas era combinar numa proveta dois de seus 24 líquidos coloridos (contei e guardei) que resultava num líquido verde transparente. Só para brincar de O Fantasma da Ópera, naquela versão com o Claude Rains, que eu vira no Rian e amara como amo até hoje, fiel que sou. Em certas coisas. Meu esquema seria o de jogar, tal como no filme, o líquido, supostamente um ácido corrosivo, na cara de meu amigo Alain, francês, que logo depois do Natal em questão voltou para a França. Sem ácido corrosivo verde transparente pingando da cara. Mas morreu há alguns anos. Do coração. Do jovem coração. Soube quando, como de hábito, fui procurá-lo, já instalado aqui em Londres, numa de minhas idas a Paris, no fim de ano. Para as festas. O importante não é isso. O importante é que nunca que o raio do chato do Papai Noel me deu a caixa de química. Talvez porque custasse 500 paus, uma fortuna na época. Tinhas umas mais vagabundinhas de 50 mil-réis no “Lá em Casa”. Não era, no entanto, a mesma coisa, apesar de dar para fazer na base da alquimia um líquido vermelho que a gente jogava na roupa dos adultos e, depois do ódio contido deles, sumia como que por magia. Ah, é. Caixa de mágica também. Eu vivia pedindo caixa de e com mágicas. De certa feita, ganhei. Não acertei com uma. Mas o lenço vermelho dentro do tubinho preto de papelão era bacaninha. Mas ao preparado do líquido vermelho. Vivo perguntando e ninguém se lembra de um lança-perfume vermelho (tinha um diabo da mesma cor no rótulo) que surtia o mesmo efeito. Não dava prise (é onda, baratino. Galicismos de antanho) nem susto. Pura e burra curtição infantil. Tudo isso passou. Felizmente. Os natais davam grandes praias com excelentes ondas para o jacaré de peito. Na marra, tal como deveria sempre ser. Natal branco e vermelho em Londres Não tem jacaré nem onda aqui em Londres. Bêbado, sim. Muito bêbado. Especialmente bêbado tipo e tamanho família. Que enche primeiro a cara (muito) e, depois, enche o saco dos menores indefesos. Todos adultos ficam de porre. Mães, tias e avós também. Bebuns e empanturrados. Eu se pudesse jogava o líquido verde transparente neles todos. O de verdade. Aquele ácido que deformou o rosto de Claude Rains. Deveriam ir todos, depois, morar nos esgotos de Londres, botar uma máscara verde, linda de morrer também, ocultando a parte em carne viva da cara, e partir para tocar órgão e assustar as pobres sopranos da Royal Opera House, aqui pertinho. Pensamentos e desejos em branco e vermelho deste Natal de 2007 em Londres. |
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