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De ursos e profetas | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Kes Gray, cidadão britânico, era alto executivo publicitário. Um dia resolveu parar com essas bobagens e passar a fazer o que realmente queria na vida: escrever histórias para crianças. Sua primeira incursão no gênero chamava-se Who's Poorly Too, que eu traduzo com excessiva liberdade para Quem está pobrezinho também, com a ressalva de que poorly pode ainda significar “doente, indisposto”. As ilustrações eram caprichadas conforme queria o autor, aliás um homem dos mais bem intencionados. Sua estréia na literatura infantil deixava patente uma pronunciada tendência para promover o multiculturalismo, o bom entendimento entre os homens de boa e de má vontade principalmente. Seus vários personagens, todos bichinhos, originavam-se de várias partes do globo. Entre eles Dipak Dálmata e Pedro Pingüim. Kes Gray procurou ser o mais abrangente possível, tanto que, deles, constava também Mohammed Toupeira, que nós poderíamos, com alguma relutância, e cuidado, traduzir por Maomé Toupeira. O livro foi publicado em 1999, tendo vendido mais de 40 mil exemplares, no Reino Unido e no estrangeiro. Não chega a ser um Harry Potter, mas dá para viver. Mais ou menos. Atualização No último fim-de-semana, no Sudão, dois enviados especiais do governo britânico, um homem e uma mulher, parlamentares muçulmanos, ambos de origem árabe e pertencentes à Câmara dos Lordes, foram tentar junto ao presidente Omar al-Bashir, a libertação da professora Gillian Gibbons, que naquele país ensinava crianças, presa desde o dia 26 de novembro e condenada a 15 dias de prisão, por permitir que um dos alunos, com o apoio do resto da classe, desse o seu próprio nome, Mohammed (Maomé), a um ursinho de pelúcia. O presidente sudanês recebeu na segunda-feira os enviados e, num gesto de magnificência, ordenou que Gillian Gibbons fosse libertada. A professora, que já se encontra na Inglaterra, escapou de boa. A pena por insulto ao nome do profeta muçulmano, ou islamita, prevê naquele país até seis meses de prisão e vinte chibatadas. Quando o devido tribunal condenou-a a “apenas” 15 dias de cárcere, multidões foram às ruas protestar contra a “excessiva leniência” e, armados de facas e facões, pediram a morte da professora inglesa. A televisão britânica, com alguma diplomacia, mostrou. Em suas primeiras declarações após o “indulto”, Gillian Gibbons se mostrou pesarosa por causar sofrimento ou aflição entre seguidores exaltados do islamismo. Ela não os chamou de “exaltados”. É caco meu. Vício, cacoete e lugar-comum de nosso demótico. Ao que parece, tudo acabou bem. Até agora. Morgan Toupeira Voltando ao livro de Kes Gray. Entre as várias multiculturizações, havia uma toupeira chamada Mohammed. Ou ainda Muhammad, dependendo do jornal que o cidadão lê aqui. Antes das boas notícias sobre a libertação da professora correrem, na segunda-feira de manhã, o escritor já decidira, juntamente com sua editora, mudar o nome da toupeira para Morgan. Morgan Toupeira. Isso sem que ninguém nunca tivesse reclamado de nada. Não deve ter entrado para a lista dos dez livros infantis mais bem vendidos entre os maometanos. Kes Gray explicou que tentara abraçar o máximo possível de culturas. Nem lhe passara pela cabeça que um caso feito o da professora pudesse acontecer. Segundo o ex-publicitário, ele passara pelo Egito, agora mesmo, em 2007, e lá, segundo suas palavras “todo mundo se chamava Maomé”. Era, portanto, um nome comum, deduziu. Os Morgan, um sobrenome também comum, só que no País de Gales, não reclamaram. Até agora, digo mais uma vez. O outro lado do ursinho A compreensível auto-censura de Kes Gray contrasta com a atitude corajosa de muitos muçulmanos britânicos. No mesmo fim de semana em que a toupeira mudou de nome, 10 mil famílias de maometanos destas ilhas compraram ursinhos de pelúcia com o objetivo de angariar fundos para os refugiados muçulmanos no Sudão. A iniciativa partiu da Sociedade Islâmica da Grã-Bretanha, que age desde 2004, e todo o dinheiro acarretado irá para os muçulmanos atingidos por enchentes e refugiados não-islamitas no Sudão onde, além do mais, segundo dizem eles e a imprensa mundial esclarecida, sofreram massacres sistemáticos promovidos pelo governo do país aliado. O que explica a delicadeza com que o caso da professora e do ursinho Maomé foi tratado pela imprensa. Voltemos aos ursos de pelúcia, que me parecem bem mais inofensivos do que os homens, não importa a religião que estes tenham inventado para seguir. Cada urso custa perto de trinta dólares. Metade dessa quantia vai para a caridade, para a Sociedade Islâmica. Um pequeno detalhe. Os ursinhos em questão não se chamam Maomé. Seria exagero, além de perigoso. Receberam então o nome de Adão, que além de ser, segundo os ocidentalistas cristãos – isto é, nós --, o primeiro homem na Terra acumulou, ainda por cima, as funções de profeta maometano. Aconselhados por acadêmicos e estudiosos islâmicos, a Sociedade Islâmica obteve então a devida permissão para batizar os controvertidos bichinhos inanimados. Seu nome completo é Adão O Urso Muçulmano das Orações. Se você tiver a coragem de puxar pela patinha da figurinha, ela dirá, em voz roufenha, “assalamu alaikum”, que em árabe significa “a paz esteja convosco”. São capazes ainda de acrescentar mais: “Em nome de Alá, o misericordioso e benigno”. Segundo Naved Siddiqui, porta-voz da Sociedade Islâmica da Grã-Bretanha, há uma ironia nisso tudo. Diz ele que o profeta, louvado seja seu nome, iria se rir à farta do caso todo. Sem dúvida. |
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