|
Lábaros & Pendões | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A bandeira do Reino Unido é uma das mais conhecidas do mundo. Simples, elegante, traçada como que por Coco Chanel. Tem até apelido carinhoso: Union Jack, ou bandeira da União. Poder-se-ia dizer, apelando-se para a mesóclise, pois se trata de querido símbolo de uma pátria, que o referido Jack da União é uma espécie de pretinho da Chanel. Sei que, ao fazer tal comparação, não irei preso, nem serei ameaçado de expulsão do país mais vinte chibatadas no lombo em Heathrow, para não me esquecer dos 30 anos seguidos deste país que completarei no mês que vem. Pois não é que querem mexer com o pavilhão nacional? A ministra da Cultura, Margaret Hodge, que não canta mas encanta, disse, em pleno plenário, que irá pensar na possibilidade de um novo desenho para a bandeira da União afim de nela incluir o dragão galês. Como? Pois é, o símbolo do País de Gales é um dragão. Nada a ver com aquele de Walt Disney, dengoso e que soltava fogo pelas ventas. Trata-se do dragão que os galeses ostentam orgulhosos em sua bandeira, uma vez que os quatro países (sim, países. Por isso tem tanto “inglês – conforme os chamamos – em torneios de futebol e outras competições, esportivas ou não) Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e o País de Gales, aliás, a rigor, um principado, constituem o Reino Unido e cada um deles tem sua bandeira em conjunção no visual, no design tão agradável à vista. Símbolos da terra A bandeira da Inglaterra tem a cruz de São Jorge, vermelha, sobre fundo branco. A da Escócia, outra cruz, a de Santo André, esta em diagonal e branca sobre fundo azul. Por fim a da Irlanda, que no caso acabou sendo apenas a parte do norte, também com santo e cruz: São Patrício, mais cruz, também diagonal, vermelha sobre fundo branco. “Cruzes!”, podemos exclamar com propriedade. Todas simples e quase que pedindo para serem hasteadas e postas para tremular impávidas. De sua junção nasceu o propalado Jack da União, a bandeira do Reino Unido. Que só não uniu a bandeira do País de Gales, destituída de cruzes, mas com um dragão alado e de língua e rabo em forma de seta sobre fundo formado por duas faixas horizontais, uma branca em cima de outra verde. Os galeses acham que está mais que na hora de incorporar ao pendão o seu (lá deles) dragão às cruzes dos santos padroeiros dos outros países da União. A ministra da Cultura, tomando do violão, digo, tomando de um papelzinho tirado da bolsa, disse no Parlamento, semana passada, que a questão do dragão no lábaro será seriamente estudada. Frise-se que o dragão do principado de Gales não está presente às tremulantes comemorações bandeirais devido ao fato de que, quando foi criado o primeiro Jack da União, em 1536, o país em questão já estava unido à Inglaterra, portanto um pedaço rubro daquela cruz de São Jorge representa os queridos e prendados galeses, sem dragão alado, rabudo e lingudo, mas galês. A cruz de São Patrício foi incorporada em 1801, quando da união com a Irlanda. Foi ficando até sair aquele pau todo com a moçada irlandesa e, finalmente, a Irlanda virar república e cravar três faixas verticais (branco, laranja e verde) que a igualam a qualquer outro pavilhão nos ares deste mundo desfraldado. Pode ser uma beleza de ilha, além do mais republicana, sem falar nos baixos impostos, mas falta-lhe charme, graça, veneno. Símbolos augustos Entendo de bandeiras. Meu bisavô, Júlio Ribeiro, que conhecia heráldica, é o responsável pelo design da única bandeira, tirante a mineira, conhecida não só em todo Brasil como em alguns países estrangeiros mais esclarecidos. Qualquer semelhança entre a bandeira de São Paulo e a dos Estados Unidos é mera coincidência. Em tempo: o objetivo de uma bandeira é dispensar palavras, tudo dizer com cores e símbolos, portanto a mineira, apesar de jeitosa e pedante (aquele latim!), não cumpre a rigor seu objetivo. Libertas quae será tamen indeed, conforme se diz por aqui. Vão, amigos, aos vossos computadores e mandem lá, via o engenho de busca, as bandeiras de nossos estados. São todas horrendinhas, com o devido respeito, acrescento com alguma hipocrisia. Vou mais longe (fui mais longe: eu estou aqui, vocês aí): a do Brasil é uma das mais feias do mundo. Não se trata de opinião só minha. Há alguns anos foi feita uma pesquisa, ou concurso, por aí, e lá estávamos nós, brilhando com aquele lema meio maçônico, meio positivista, pinçado de alguma tolice rabiscada por Augusto Comte, tido como filósofo, vejam vocês. Repito: bandeira, tendo faixa com coisa escrita, não é bandeira, é faixa ou cartaz a ser agitado nas gerais e arquibancadas dos estádios de futebol. Ou concerto de rock. Tanto faz. Tem sempre, em qualquer lugar e ocasião, pelo mundo inteiro, um brasileiro tomado de agito de lábaro e pendão. Num impulso invulgar, acabei de conferir a bandeira oficial do estado da Paraíba, ao meu ver sensacional, com as cores do Flamengo em duas grossas listas verticais e a inscrição “Nêgo”, bem em cima do rubro do pendão. Nunca entendi o que eles querem dizer com isso e por que não baixou por lá a lei Afonso Arinos. Já que até a novela das oito anda perdendo ponto e passando para a terra do “já era”, acho que chegou a hora de mudar. Façamos um grande concurso com sugestões para uma nova e mais moderna bandeira, mas sin palabras, como dizem os tangos. |
NOTÍCIAS RELACIONADAS Lábaros & Pendões30 novembro, 2007 | BBC Report Contos da Cantuária28 novembro, 2007 | BBC Report O estrangeiro é aqui26 novembro, 2007 | BBC Report Questões seminais 23 novembro, 2007 | BBC Report Goodbye! Hello!21 novembro, 2007 | BBC Report A griffe é nossa19 novembro, 2007 | BBC Report Eram os deuses diabéticos?16 novembro, 2007 | BBC Report Doçuras de novembro12 novembro, 2007 | BBC Report | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||