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Atualizado às: 14 de dezembro, 2007 - 08h50 GMT (06h50 Brasília)
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O revertere do Latim
Ivan Lessa
Paulo Rónai, autoridade em algumas dezenas de coisas ligadas a línguas várias, amava o Latim, que se deve escrever assim, em letras maiúsculas.

Questão de respeito para com os mais velhos e de quem descendemos. Os estudantes brasileiros, até bem pouco tempo, antes do Brasil atear fogo às vestes auri-verdes e tomar formicida com açaí, eram obrigados por lei a tomar conhecimento ao menos das noções básicas daquilo que, conforme nos diziam, era uma “língua morta”.

Morta. Quem sabe já estavam preparando o caminho para um definitivo enterro da matéria e tentando nos assustar com a necrofilia. Ganharam. Eles, sempre eles. Nossos déspotas esclarecidos.

O Latim, nem mesmo o latim, constam hoje de nossos currículos. Os responsáveis pelo ensino no país compreenderam aquilo que os alunos, principalmente os maus alunos, os preguiçosos e vagabundos, sempre souberam: o importante é passar.

Mesmo colando nos exames escritos e orais. O que “eles”, sempre “eles”, querem mesmo é que aprendamos inglês. Afinal alguém tem que traduzir as legendas dos filmes e os dizeres dos manuais “Como montar um canhão”. Ou “O liquidificador e seus segredos”.

Português é uma língua neolatina. Isso soava mau aos ouvidos de nossos governantes e educadores. Forçoso aderir às nossas coisas e coisas nossas.

Contanto que não tenha índio pelado no meio. Tudo que contribua, em ordem, para o nosso progresso. A indústria automobilística e as empresarias, até mesmo a linguagem jurídica, ou o que dela restou, dispensa nominativo, dativo e acusativo. O inglês soa mais moderno. Mais with it, mais really cool.

Dulce et decorum

Chutado para córner, mandamos para as blicas também provas de redação. Só um imbecil, e um perfeito imbecil, desses que citam Nelson Rodrigues, acredita em escrever português.

Ler? Um pouquinho e com moderação. O suficiente para passar os olhos pelos nossos 4 jornais e 1/3 e neles procurar a página com o resumo dos capítulos anteriores das telenovelas ou o palpite do colunista que seguimos. Detemos o comunismo. Contra o colunismo, nada pudemos fazer. Paramos de votar há mais de meio século.

Torcemos por esse ou aquele outro “formador de opinião”, conforme ensinam nas universidades. Analfabetismo e ignorância, bem calibrados, dão um dinheirão a quem aprendeu o que quer dizer em português No smoking e Fasten your seat belts em suas viagens de negócios.

Deletou-se tudo que não era necessário para o crescimento e conseqüente enriquecimento de um pugilo de elites, conforme gostam de ser chamados. Língua indo-européia do ramo itálico, originalmente falada no Lácio, feito o Latim, é os tinflas. Espiquingres. E tome funk e rap. Conheceu, papudo?

Enquanto isso, no Primeiro Mundo…

O Latim, assim como a banda Led Zeppelin, está fazendo um comeback aqui por estas…bandas? Em Londres, 20 colégios primários, sob a égide de um projeto cognominado (de cognominare) Íris, dirigido por uma “fessôra” por nome Lorna Robinson, estão tentando ensinar (e fazer com que os alunos aprendam) a língua para nós morta e enterrada e que ora e reza Resquiecat in pace, segundo os filmes de George A. Romero (googlai, gente boa, googlai).

Em outro condado, o de Oxfordshire, de bons antecedentes, vários colégios estão sendo reapresentados ao idioma de Mel Gibson (vide e vinci A Paixão de Cristo) Cícero e Petrônio, mais conhecida como A Trinca do Terror (Terrorum trincam).

Dona Lorna, tadinha, acredita que o Latim pode ajudar as crianças a lidar com o idioma (e quem sabe? Talvez até mesmo a língua) inglesa. Em Hackney, bairro sobre o destituído, tido como analfabeto de pai, mãe e antecedentes, tipo acabado do profanum vulgus, o Latim já deu sinal de vida, sem que ninguém – ora veja! – achasse que fosse frescura desses remediados todos.

Burrice não é exclusividade nossa

Lembremos que, em 1968, na Paris dos “acontecimentos” estudantis, um dos protestos era contra o ensino compulsório do Latim. Heureusement, o sonho acabou.

Resta agora excursão dos Rollings Stones e do Police. No outro extremo do espectro (spectrum extremis), uma das primeiras medidas adotadas pelos bolcheviques assim que chegaram ao poder foi banir o Latim de todos estabelecimentos de ensino.

Baniram de forma ainda mais radical mandando alguns milhões de seus compatriotas vagamente dissidentes para aquele revertere ad locum tuum mencionado pelo esplêndido Moreira da Silva num samba de breque e que também constitui inscrição na fachada do cemitério São João Batista no Rio.

Onde, para encerrar com fecho de ouro, encontra-se, entre alguns milhares de outras coisas e gentes agora inúteis, o Latim, aguardando apenas o que restou – um pouco, muito pouco – do português brasileiro. Nada detém a ordem, ninguém consegue deter o progresso.

Arquivo - Ivan
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