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Atualizado às: 10 de dezembro, 2007 - 08h09 GMT (06h09 Brasília)
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Esses números são um número
Ivan Lessa
O jogo de palavras do título é indigno de um homem com instrução primária. Às vezes, no entanto, é necessário folgar. Forçar a barra para atrair a atenção de um leitor mais distraído do que os outros.

Os brasileiros amam o trocadilho e o jogo de palavras. Principalmente quando são falados e não escritos. O jogo de palavras lembra a corrida que o ponta dá e centra para dentro da área na esperança de que um companheiro marque um gol, seja de cabeça, seja de bico de chuteira mesmo.

O importante é a ação. Verbal, num mundo ideal. Verbal, em terras brasileiras, para ser mais precisa. Isso porque não somos lá grande coisa em matéria de leituras.

Não digo ler os clássicos. Ler as legendas e os diálogos de uma revistinha do Carlos Zéfiro já bastariam. Mas não. Todas as pesquisas e sondagens conspiram contra nós: insistem em que somos, no máximo, e com uma forcinha, semi-alfabetizados.

Para todos os efeitos, iletrados. Sorridentes, bons de cintura, cheios de bossa e os clichês de sempre, mas, mesmo assim, iletrados. Somos nós mesmos que o afirmamos e não, por uma vez, o correspondente americano Larry Rohter, do New York Times.

Na era do já era

Perdão, leitores. Mais uma vez. No entanto, como vocês, ao que parece, são leitores e, portanto, privilegiados e pertencentes às mais altas castas do país, posso me dar ao luxo de voltar e insistir no jogo de palavras. Mesmo que ele nada tenha a ver com o assunto nestas linhas focalizados. Estas linhas focalizam o calouro que se prepara para cantar ou Granada ou o Nessun dorma. Atentos ao gongo, pois, vocês aí.

Ainda outro dia, com o alarde habitual com que se dá uma boa notícia no Brasil, noticiou-se e andei lendo que, a partir de agora (foi neste dezembro) a expectativa de vida do cidadão brasileiro passara a uma média espetacular, de fazer inveja até mesmo aos companheiros bolivianos, logo aí lado, e os companheiros venezuelanos, mais acima um pouco.

Chegamos finalmente à média de 72,3 anos. Uff! Foi duro, mas conseguimos. Nos, homens. As mulheres, ao que parece, vivem mais alguns anos e números após vírgulas.

O que me desperta mágoa e pruridos de misoginia. Neste reduto privilegiado e esotérico dos homens, criança não entra. Continuam a morrer lá em suas tenras idades, apagando (caso haja) as velinhas do bolo (caso tenha), a meninada de sempre, logo depois de parar de fazer arte na rua. Após muito googlar, cheguei ao Instituto Brasileiro de Geografia (IBGE) que, ainda agora, divulgou dados que apontam melhoras e pioras expressivas dos índices que assolam nosso (mais vosso do que meu) país.

Até 2005, a expectativa do brasileiro médio – o Carlos Monteiro Tavares, de Roncão, na Paraíba, rua Porciúncula Bezerra, s/n, fundos, por exemplo – era de 71,9 anos.

Em 1960, ano em que adquiri o extraordinário LP de Billy Eckstine No cover, no minimum, selo Roulette, gravado ao vivo em Las Vegas, a expectativa, com todo mundo nas gerais e arquibancada prendendo a respiração de suspense (35% morreram de auto-asfixia, segundo o Instituto Brasileiro de Auto-asfixia), a expectativa, gaguejava eu, e agora balbucio, era de uns meros 54,6 anos.

Progresso é isso: morrer menos e mais velho. O resto é conversa fiada para boi dormir, conforme se dizia em 1938 (expectativa de vida: 23,11 anos).

Meses, uma vírgula!

Nessa história toda, o que me impressiona de verdade, não é nem a morte nem a vida, que ambos são apenas um triste prurido entre um sono e outro, mas sim a vírgula depois da idade.

Entendo uma expectativa média de vida de 32 anos, visto que já passei de avião por cima de nosso nordeste, em 1958 (expectativa de vida: 50,5 anos). O que me dana é aquela vírgula que nosso querido IBGE foi arrumar. Creio que denota a passagem de ano para mês, pois não? Ora, com o devido respeito, vão fazer essas contas, tirar essas médias imponderadas, no raio que os parta, conforme se dizia em 1908 (expectativa de vida: 13,7 anos).

Todo mundo, agora, neste ano e no próximo, com 72 anos e 2 meses de vida vai passar 30 dias infernais esperando a data fatídica. Como quem aguarda o assassino contratado, envolto em sombras, sua arma ou peixeira na mão. Mais: e quem tem 81,4 anos? Terão eles o direito de esfregar as mãos e, em gesto de supremo egoísmo, se rirem dos 9 anos e – não sei fazer as contas – caquerada de meses que levam de vantagem sobre os falecidos aos 72,3 anos? Acho injusto e mal pensado.

Deveríamos optar pelo uso apenas de “mais de”, como em “mais de 72 anos”, já que somos Terceiro Mundo, ou em Desenvolvimento, como as elites preferem dizer em suas passagens pelas poucas colunas sociais ainda existentes. 72 anos ponto. Só.

Não vou revelar minha idade. De jeito nenhum. Não há hipótese.

Tá bom, já que insistem e não quero receber email reclamando ou ser blogueado em infração etária: 72,9 anos. Contentes, agora? Não sou brasileiro médio.

Nunca tive expectativa. Vida? Uma piada. Levo, no entanto, segundo o vosso Instituto, uma vantagem: deixei o país há 29,10 anos e 10 dias (29,10.10?). É a única explicação para eu não ter padecido no dia 9 de agosto do ano corrente.

A mortalidade infantil

Esta coluna é só para maiores de 18 anos. Sinto muito.

Arquivo - Ivan
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