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Atualizado às: 04 de outubro, 2007 - 08h49 GMT (05h49 Brasília)
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Sputnik: nobre ou abominável?
Em 58 eu jogava futebol de salão num time chamado Vanguard.

"Que nome é este?", os jogadores dos outros times perguntavam.

Nem nós sabíamos se o U era pronunciado e qual era a sílaba tônica. A gente dizia que era um foguete americano. Virou o Vanguardi.

Nossa ignorância espacial era do outro mundo e quando o Sputnik bipou em órbita nossa reação foi tão idiota quanto a maioria dos russos. O grande Pravda deu uma notinha nas últimas páginas. Só virou manchete dois dias depois e o destaque era a reação mundial deslumbrada com o grande feito pioneiro soviético.

Bip bip bip e daí? E daí seus burros, explicou o professor, em vez de um satélite que bipa você coloca uma bomba nuclear no foguetão e bye bye Washington, Nova York. Fim do mundo.

O jornalista Vladimir Isachenkov conta detalhes saborosos de como os cientistas conseguiram convencer o Kremlim a ceder um foguete R7 para lançar o Sputnik. Eles eram muito mais poderosos que os foguetes americanos, mas eram poucos e caros.

Tinham sido construídos com objetivos nucleares, mas como a bomba teste não ficou pronta, os líderes do Kremlim entregraram o foguete ao suplicante cientista chefe Sergei Korolyov para sua experiência com o satélite.

Os líderes soviéticos também não entendiam as implicações de um satélite em órbita. Krushev e o filho, hoje nos Estados Unidos, ouviram o bip bip do Sputnik por telefone e foram dormir.

A ciência e o poderio militar soviéticos ganharam novo respeito e nova dimensão, mas os nomes de Sergei Koroliov e seus principais assistentes não foram revelados e nem puderam entrar na lista do Prêmio Nobel. A vitória era do povo soviético, explicou Krushev.

Naquela época eu não podia imaginar que anos depois passsaria tantas semanas, vários meses no total, nos centros espaciais da Nasa no Texas e na Flórida na cobertura das viagens à lua.

Os lançamentos, os foguetes e o equipamento eram fascinantes, mas o ambiente era tão protegido e pasteurizado que até repórteres famosos com mais acesso se queixavam da falta de pulso.

Pouco antes do lançamento do Apollo 11, já tarde numa noite de sábado, Oriana Falacci perdeu a paciência e, aos berros, com palavrões em inglês e italiano, insultou o pessoal responsável pela mídia.

Norman Mailer também estava infeliz no Texas, mas sua caça deu melhores resultados na Flórida e ele lançou seu calhamaço Of a Fire on the Moon, onde tentou responder se o programa espacial era a mais nobre ou a mais abominável conquista do homem.

Talvez o futuro espacial traga abominações, mas hoje, 50 anos depois da primeira criação do homem no espaço, é dia de soltar foguete.

Arquivo - Lucas
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