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Atualizado às: 14 de junho, 2006 - 14h50 GMT (11h50 Brasília)
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Jornalista fala sobre volta ao Timor após violência

Soldado australiano passa em frente a casa incendiada na capital, Dili
Onda de violência no país foi a pior desde a independência, em 1999
Voltei ao Timor Leste depois de ter passado 11 dias em Darwin, aonde eu fui me refugiar da pior onda de violência desde a independência do país da Indonésia, em 1999. Em nada parecia com o Timor de quando cheguei pela primeira vez, quase dois anos atrás.

Do avião já pude ver a fumaça de algumas casas queimando e a movimentação dos tanques de guerra nas principais ruas da cidade. Esqueci de olhar a paisagem verde e os três lagos da região de Tacitolo, onde o papa João Paulo 2º chegou a fazer uma missa um dia.

O aeroporto, que recebia apenas dois vôos diários, agora está cheio de helicópteros da ONU e do Exército australiano. O estacionamento virou um dos vários campos de refugiados espalhados pela cidade.

Os timorenses que procuram abrigo e segurança perto das tropas dormem em lonas e em poucos colchões que conseguiram retirar de suas casas. A ONU e algumas ONGs fazem a distribuição de alimentos durante o dia.

O caminho de volta do aeroporto em nada lembrou minha primeira visita ao Timor. Casas queimadas. Lojas destruídas. Medo no olhar de quem circula nas ruas. Barulho incessante de caminhões e helicópteros. Nenhum aceno, ninguém vendendo nada, nem gritando malae (estrangeiro em tétum, uma das línguas oficiais do país).

Sem clima de festa

Enquanto estive na Austrália tive a casa assaltada. Roupas jogadas no lixo, papéis rasgados, luzes queimadas e muita coisa roubada. Estou hospedada na casa de uma amiga brasileira que trabalha para as Nações Unidas como juíza. Uma pessoa com o coração enorme que sempre chega tarde da noite pelo volume de trabalho nestes últimos dias.

Foto de Thaíza Castilho
Crianças de Díli não gritam mais 'Malae! Malae!' aos estrangeiros

No escritório onde trabalho apenas cinco pessoas estão indo regularmente. Eu não sou uma delas. Visito os campos de refugiados. Compro comida e água do próprio bolso para amigos timorenses que precisam de ajuda. Arrumo a casa aos poucos, ainda sem saber se volto para lá ou se mudo para um lugar mais seguro.

Minha casa, que dividia com mais dois amigos, sempre foi cheia de gente. Pra mim o Timor sempre esteve associado a festas e ótimas pessoas trabalhando para desenvolver uma nação. Hoje não fazemos mais festas. Aquele país de crianças sorrindo nas ruas, conversas nas bancas de cigarro e caminhadas na praia não existe mais.

Crianças matam cachorro a pedradas para comer esta que, embora pouco falada, é uma das carnes mais apreciadas no país.

Ninguém respeita o trânsito. As pessoas ficam paradas em alguns locais vendo os tanques e inúmeros caminhões do Exército circularem freneticamente pelas ruas. Alguns poucos táxis ainda se arriscam nas regiões mais seguras, o preço da corrida continua o mesmo: um dólar. Quem não é taxista aproveita para ganhar uns trocados enquanto o trabalho não retorna ao normal.

As lojas e restaurantes que voltaram a funcionar fecham antes de escurecer. Fazer compras só é possível até as cinco da tarde. Depois disso nada permanece aberto. Restaurantes, mercados e o comércio em geral ainda sofrem com funcionários que não aparecem ou saem cedo com medo de andar nas ruas a noite.

Entrar em edifícios públicos só é permitido com apresentação de crachá de identificação. Quem faz a segurança são militares australianos que verificam individualmente cada pessoa. Com os carros a mesma coisa. Agora existem postos de controle em vários pontos da cidade.

Timor Leste foi um país onde eu aprendi muita coisa. Cheguei como voluntária e 300 dólares no bolso. Conheci limites antes desconhecidos. Trabalhei em muitos lugares. Jornais, rádios, centro de educação para jovens e mais um monte de coisas que não me cabe agora enumerar.

Descobri que o timorense vê o brasileiro como um irmão mais velho. Que, mesmo do outro lado do mundo, as músicas de Leandro e Leonardo, Roberto Carlos e Amado Batista fazem muito sucesso. Que nossos jogadores de futebol são queridíssimos no país. E que, assim como o Brasil, Timor Leste ainda tem muito que aprender

*Thaíza Castilho é jornalista e vive no Timor Leste desde 2004

Casa queimada no TimorCrise no Timor
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