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Decepcionado com Iraque, Fukuyama se afasta dos neoconservadores | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Com sua densa bagagem intelectual, o teórico político americano Francis Fukuyama sempre chega com estilo e controvérsias a uma encruzilhada histórica. Hoje é o Iraque. Há 15 anos foi sua proclamação sobre o "fim da história", que obviamente não significava o desfecho da trajetória humana e sim a noção de que a evolução ideológica terminara com a vitória da democracia liberal e a derrota do comunismo soviético. Desta vez não é uma história de triunfo da banda de Fukuyama. Se é para usar jargão comunista, o seu novo livro é uma autocrítica. Fukuyama está renegando pilares do neoconservadorismo e por esta razão é tratado como um desertor pelos ex-companheiros de estrada. Tudo bem para um intelectual sempre pronto para um duro embate ideológico. As principais objeções de Fukuyama à política de Bush no Iraque são o fiasco de inteligência na questão de armas de destruição e massa e incompetência na tarefa de ocupação. Este novo fim da história (da associação com os neoconservadores) foi anunciado num ensaio de sete páginas em fevereiro na revista do jornal The New York Times que praticamente coincidiu com o lançamento do livro. Fukuyama era mais do que um companheiro de estrada dos neoconservadores. Foi um dos construtores da estrada e, no entanto, agora anuncia o fim da linha quando escreve: "O neoconservadorismo, tanto como um símbolo político como um corpo de pensamento, evoluiu para algo que eu não posso mais apoiar". Mas como poucos, Fukuyama contribuiu para a evolução deste corpo de pensamento e prática política. Ele foi crucial no desenvolvimento do Projeto para o Novo Século Americano (Project for the New American Century, PNAC) e seu manifesto unilateralista de 1998. Fukuyama era o intelectual mais proeminente entre os fundadores do PNAC, que forjou uma aliança entre os puros neoconservadores, a direita religiosa e os "nacionalistas agressivos" da escola do vice-presidente Dick Cheney e do secretário de Defesa Donald Rumsfeld. Cartas a Clinton e Bush Fukuyama esteve entre os 18 signatários da carta endereçada em 1998 ao então presidente Bill Clinton com a exortação para que os EUA empreendessem uma ação militar para "remover Saddam Hussein e seu regime do poder", com o argumento de que se tratava da mais "séria ameaça para nós desde o fim da Guerra Fria". Nove dias após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, uma nova carta do grupo exortou o agora presidente George W. Bush a derrubar Saddam Hussein "mesmo se evidências não o vinculem diretamente aos ataques". A retratação em 2006 é fruto de um exame clínico do neoconservadorismo. Fukuyama disseca suas entranhas, diagnostica a doença e oferece prescrições. Os neoconservadores acreditam que os americanos devam oferecer liderança moral ao resto do mundo, espalhando liberdade e democracia. Hoje Bagdá, amanhã Teerã ou Havana. Fukuyama permanece simpático à missão idealista, mas critica a impaciência, o voluntarismo, a ambição desmedida e o mau planejamento no Iraque. E enfatiza que, imbuídos de um ardor messiânico, os neoconservadores abandonaram um saudável ceticismo em relação a utópicos projetos de engenharia sociais. As contradições neoconservadoras explodiram no Iraque, onde o ceticismo sobre mudança de regime cedeu lugar ao investimento excessivamente dependente do poder militar. Há limites no uso do poder americano, adverte Fukuyama, mesmo na forma de hegemonia benevolente, para mudar o mundo. No começo do livro, Fukuyama dá uma aula sobre as origens intelectuais do neoconservadorismo. Quatro princípios são essenciais e cada um deles distingue o movimento de outras escolas de pensamento em política externa. Ao contrário dos realistas, os neoconservadores acreditam que a política externa deva refletir os valores mais profundos das democracias liberais. Ao contrário dos isolacionistas, os neoconservadores acreditam em um ativismo internacional dos EUA. Ao contrário da esquerda, existe a desconfiança de projetos sociais ambiciosos. E ao contrário dos liberais internacionalistas, há ceticismo sobre a legitimidade e eficácia de instituições internacionais. Fukuyama lamenta excessos, fantasias e a prática do ideário neoconservador, mas não chega a repudiá-lo categoricamente, embora queira distância do rótulo. Na encruzilhada, existe mais um recuo tático e um reconhecimento de que as metas precisam ser conduzidas de forma mais modesta e multilateral. O neoFukuyama ainda tem muito do velho. 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