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Atualizado às: 27 de janeiro, 2006 - 13h05 GMT (11h05 Brasília)
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19' 42''
Ivan Lessa
19 minutos e 42 segundos. Esse o tempo médio que os britânicos gastam em sua hora de almoço. Tudo cronometrado por essa gente estranha que passa 6 horas, 47 minutos e 53 segundos de cada dia da semana, de segunda a sexta, observando, indagando, medindo, chateando enfim, a população destas ilhas que – e não entendo porquê – ainda não se revoltou contra o nefasto hábito da pesquisa ou sondagem.

Chamam de profissão, mas é mentira; esse negócio é mais que hábito, é vício e vício malsão. Os chamados “ pesquisadores” – e minhas aspas não dizem tudo – ficam atrás das pessoas com seu arsenal de instrumentos macabros, sempre com um sorriso fingido nos lábios, tentando parecer que nelas estão interessados. Nada. Vivem atrás de números e cifras, sofrem do mal de compilar dados, como se não houvesse nada demais nessa moléstia incurável.

Esses doentes, servindo sabe-se lá a que interesses escusos, descobriram agorinha mesmo, após meses de (rá!) “pesquisas”, que os britânicos dedicam 19 minutos e 42 segundos para com a segunda refeição mais importante do dia: o almoço. Esse dado é o resultado do frio registro de cronômetros e da gélida anotação de pessoal especialmente treinado agindo no campo, isto é, nos restaurantes, se assim se pode chamá-los, de comida ligeira, a ubíqua e globalizada “fast food”.

Gente lenta atentando para gente apressada, digo eu. E vou mais adiante e insisto: e o café da manhã britânico, tido e havido como a única experiência culinária interessante destas ilhas? Por que não sofreu a ação impiedosa de seus relógios de precisão? E o jantar no seio amplo e generoso da família? Quanto tempo leva?

Um almoço sozinho, de per si, não quer dizer nada. Pegar na esquina um sanduíche, um refrigerante e ficar de boca cheia contando piadas grosseiras no celular é economizar tempo para mais poder trabalhar e enriquecer o país. Imagine se, amanhã, todo mundo, tudo quanto é corretor de imóveis ou ações, fosse passar uma hora e meia comendo lagosta com (um erro) vinho tinto e depois saísse por aí dando palmadinhas na pança cheia e fumando charuto venezuelano legítimo? Poderia o Reino Unido ir para a frente? Claro que não.

Eu quero ver é, daqui a seis meses, recorde e medalha de ouro, para a Grã-Bretanha na modalidade almoço. Quando chegarem a 17 minutos e 28 segundos, me tirem da mesa de repasto, onde, todos os dias, passo 28 minutos e 23 segundos, com muito orgulho, sim senhor.

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