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Atualizado às: 25 de janeiro, 2006 - 12h00 GMT (10h00 Brasília)
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Todo Mundo Nu!
Ivan Lessa
Todos os dias, no recato de meu lar, quando não tem ninguém olhando, e dependendo de como esteja me sentindo, eu me transformo, no equivalente artístico, ao Batman ou Super-homem.

Precisamente: eu tiro toda minha roupa e – voilá! – eis-me obra de arte.

Velho, pançudo, mas obra de arte. Não estou exposto, nada exponho a ninguém, nem estou à venda.

Contento-me em ter deixado as identidades sem sal de Bruce Wayne e Clark Kent e virado o equivalente a lugares-comuns como um menino de Brodowski, de Portinari, ou, mais agressivamente pretensioso, um Giocondo, um Mono Liso, um Mayo Desnudo, tudo isso no sacrossanto recesso de minha casa.

Desnudar

Isso porque dou “presente” na escola artística do norte-americano Spencer Tunick, fotógrafo de renome, que já esteve inclusive no Brasil e cuja marca registrada é o contrário de “vestir os nus”: desnudar os vestidos.

Tunick saiu pelo mundo armado de máquina fotográfica e, o que suponho que seja um tremendo charme pessoal, já que não é fácil conseguir o que ele já conseguiu.

Examinemos seu portfólio, sua bagagem criativa: em Barcelona, convenceu sete mil pessoas a posarem nuas. Faço um ponto, abro parêntese e esclareço: Spencer Tunick não fotografa um nu depois do outro.

Ele aprecia orgias, ele curte a nudez grupal, a bacanal de corpos despidos.

Isso o que ele quer ver, flagrar e registrar. Todo mundo espalhado em pontos (“points”?) escolhidos a dedo (ui!) pelo criativo companheiro e (nossa!) tudo pelado em comum numa festa de pelancas e celulites.

Daí o “homi” vai, bota (epa!) em foco e clique-clique, estamos aí, em arte obrados.

Mas, eu dizia, sete mil barceloneses, entre homens, mulheres e crianças, de todas as idades, nuas como Deus as criou, foram, dizem, imortalizados por Tunick.

No Chile, mesmo sem presidenta de esquerda, ele convenceu quatro mil a seguirem o exemplo dos barceloneses.

Menos sucesso obteve em Montreal, no Canadá, onde apenas 2, 5 mil toparam o esquema. Deve ter sido o (brrr…) frio.

No Brasil então foram 1,2 mil, dos quais apenas 400 tiraram a roupa.

No verão do ano passado, Tunick esteve aqui no nordeste da Inglaterra, Newcastle upon Tyne, e conseguiu que 1,7 mil cidadãos e “cidadoas” se enfileirassem numa das principais ruas da cidade e esperassem para ver o (piu!piu!) passarinho. Ficaram e viram.

Agora é tudo obra de arte e, juntamente com os outros nus mencionados, encontram-se expostos, desde sábado, 14 de janeiro, na galeria que patrocinou o evento, a Baltic, em Gateshead, situada na cidade onde foram captados os bravos 1,7 mil “geordies”, como são chamados os nativos ou habitantes de Newcastle.

Eu torço para que o artista resolva dar de novo uma chegadinha até aí, o Brasil, e, desta vez, vocês dispam-se para valer, para que ele fotografe vocês todos em sua Rolleyflex.

Olhaí, nada de revelar enorme ingratidão para o camarada. Revelem apenas aquilo que ele quer. Exato.

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