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Das exéquias e suas inconveniências
Ivan Lessa
Morrer é chato. Para todo mundo. Aqui na Grã-Bretanha, se você for personalidade pública, pega pelo menos obituário classudo.

Os britânicos têm muita intimidade com a morte. Entendem de obituário. Na verdade, eu diria, do necrológio, que é uma arte.

Obituário é mero registro. Aquela história: “Faleceu ontem, aos 86 anos, vítima de complicações cardíacas, o ex-desembargador Fulano de Tal”.

Necrológio beira essas mini- e semi-biografias, tão em moda no Brasil, que ameaçam todos que já pegaram mais de 20cm de coluna em jornal.

Pobres mortos, digo eu diante do mais recente óbito, engordado como pato para pâté de foie gras ou linguiça de porco.

Um exemplo recente de necrológio: Shelley Winters. Nenhum dos chamados grandes jornais deixou de dar, pelo menos, quase uma página com um resumo da vida e das atividades artísticas daquela que nasceu Shirley e virou Shelley, dado que essas resenhas especializadíssimas me adiantaram.

Também não se avexam, os britânicos, de, nos necrológios, fazerem fofoca, ou mesmo, em alguns casos raros, partirem para uma crítica feroz do ente querido desaparecido. É – era – a vida, passou a ser a morte.

Morte. A cerimônia não foge muito ao esquema universal: caixão, corpo exposto, velório, choradeira, vozes baixas e, finalmente, enterro ou cremação.

A coisa muda na hora do ofício fúnebre, o memorial service – como naquele filme dos quatro casamentos e um funeral. Tem música, oração, poesia, discurso. No ofício de Peter Sellers, tocaram, por exigência do falecido, In the mood, sacudido fox-trot dos anos 40. Tudo bem, era a cara do morto.

Conosco, a cova é mais embaixo. Ou vamos de jornal nos cobrindo o rosto no meio da calçada, vela acesa do lado, ou partimos para nosso tradicional espírito carnavalesco. Pincei a seguinte descrição de caixão funerário num jornalão carioca que ainda – ainda! – mantém coluna dita social:

“A mesa funerária debruada com uma saia cheia e franzida de tule antigo, rebordado com flores e de branco maculado. A organza francesa cobrindo o corpo em nervuras, como espumas do mar, e um babadinho quase adolescente fazendo o contorno do rosto plácido, como uma touca numa dama antiga. Arrematando o apanhado de panos, um buquê de orquídeas com gypsophilas, como se fossem points d´esprit no tule…”

Em todos os sentidos, eu prefiro ficar por aqui mesmo.

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