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Atualizado às: 16 de setembro, 2005 - 19h19 GMT (16h19 Brasília)
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Urbanista adverte para o saudosismo em Nova Orleans

Muitas cidades sobrevivem a fogo, água, abalos sísmicos, bombas e radiação. Estão aí Chicago, São Francisco, Roterdã, Londres, Berlim e Hiroshima.
Nem todas, é claro, resistem. Não estão mais aí Pompéia ou Chernobyl. Qual será o destino de Nova Orleans?

O urbanista Joel Kotkin tem muitas reflexões e advertências a respeito. No começo do ano, ele publicou "The City: A Global History".

Em função da tragédia Katrina, Kotkin tem sido muito requisitado para atualizar seus estudos sobre a evolução de cidades para os desafios diante de uma nova Nova Orleans.

De imediato, ele teme as soluções fáceis para revitalizar ou reconstruir uma cidade.

Kotkin está cético, pois acredita que será muito grande a tentação para projetar Nova Orleans como uma cidade "cool", boêmia e turística no lugar de investir em infra-estrutura ou o básico que ele define como bons empregos, escolas excelentes e igrejas.

Isto mesmo. No seu livro, ao examinar a história da cidade, de suas origens na Mesopotâmia aos dias de hoje, passando por Roma -qualificada como a primeira megacidade-, Kotkin observa que o vigor urbano depende de três fatores: a sagração do local, a habilidade para proporcionar segurança e o papel do comércio (ou economia).

Para Kotkin, nada pior do que Nova Orleans preservar uma quimera do passado, produzindo uma ratoreira para turistas, uma cidade temática, uma Disneyworld cajun. Assim, ela iria replicar o que foi antes de Katrina: segundo ele, uma cidade decadente, indolente, corrupta, pobre e violenta.

A indústria de turismo -definida pelo ex-prefeito Marc Morial, como o "último recurso" - trouxe empregos mal pagos e efêmeros. Ademais, turismo sempre enfrenta muita competição e ali mesmo no rio Mississipi em breve estarão de volta os cassinos flutuantes arrasados pelo Katrina.

Nova Orleans já foi a principal cidade do sul dos EUA e o grande centro comercial da região do Golfo do México. No entanto, foi perdendo terreno ao longo do século 20 para Miami e Houston. A classe média mais bem educada começou a fugir da cidade bem antes de Katrina.

Claro que existe uma frieza no raciocínio de Kotkin e ele minimiza o valor de um patrimônio cultural. Seu ceticismo vale tanto para Nova Orleans como para Veneza.

De qualquer forma, ele prefere olhar para o oeste, para Houston, definida como uma cidade bem administrada e com uma economia diversificada.

Kotkin reconhece que Houston, destino de milhares de vítimas do Katrina, carece de charme e tradição. Em contrapartida, ela se tornou um imã para imigrantes de todas as partes dos EUA e do mundo.

Kotkin diz que Houston teve êxito justamente por ter investido no básico. O foco foram aspectos práticos do urbano e não no glamoroso. A cidade investiu em instalações portuárias, drenagem e esgotos.

Mesmo Kotkin reconhece que é possível investir tanto no básico como no glamoroso. Seu exemplo é Amsterdã, que, assim como Nova Orleans, sempre sofreu por estar abaixo do nível do mar.

No entanto, após a devastadora tempestade de 1953, a cidade se recuperou com uma eficência brutal e ao mesmo tempo manteve a condição de vibrante centro cultural europeu.

Kotkin adverte que é sempre um desafio dar prioridade à infra-estrutura básica. Há uma preferência para remendar e, no caso de Nova Orleans, literalmente tapar os buracos. Para ele, Nova Orleans irá afundar caso novamente se acomode a seu papel de centro de convenções ou destino de foliões.

THE CITY: A GLOBAL HISTORY
Joel Kotkin
Modern Library, 218 páginas, US$ 21,95

66Furacão Katrina
Leia mais sobre os estragos nos EUA e o resgate das vítimas.
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