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Livro relata ascensão desoladora de Putin | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Peter Baker e Susan Gasser compõem um afinado time de marido e mulher que durante quatro anos (2001 a 2004) chefiaram a sucursal do jornal Washington Post em Moscou. O livro que o casal acaba de publicar é uma desoladora crônica do governo Putin. Ambos estão convencidos de que o presidente russo não é apenas autoritário, mas muito incompetente. Baker e Glasser escrevem que a Rússia "ao menos serve como um manual de estudo sobre como não se deve reformar um sistema político ditatorial e como não travar uma guerra contra o terror". As evidências para este indiciamento são vastas e, para os dois veteranos repórteres do Washington Post, nada é mais ilustrativo deste casamento entre autoritarismo e inépcia do que o desastre no ano passado na escola em Beslan, quando extremistas chechenos tomaram mais de 1,2 mil reféns. A ação terrorista terminou com 330 mortos, metade deles crianças. O governo Putin não só controlou e manipulou as informações sobre o que aconteceu em Beslan, como aproveitou a tragédia para arrochar ainda mais o seu poder. Outra evidência da incompetência de Putin está nos indicadores sociais. Ele não conseguiu melhorar a qualidade de vida dos russos apesar de uma economia turbinada pelas receitas de petróleo. A prioridade de Putin foi assegurar que grande parte da riqueza jorre para o Kremlin. Pela legislação tributária, 90% das receitas de petróleo acima de US$ 25 o barril vão diretamente para o governo. A trajetória de Vladimir Putin é espetacular. O obscuro ex-tenente-coronel da KGB se tornou o czar pós-soviético. Para Baker e Glasser, a proeza de Putin foi "glorificar um império perdido ao invés de saudar a queda de uma ditadura". Eleições locais foram abolidas, a imprensa é censurada, o hino nacional da era stalinista está de volta e os poderosos que desafiam Moscou, como o bilionário Mikhail Khodorkovsky (que cumpre nove anos de prisão), são arbitrariamente processados. Putin foi eficiente para colocar os oligarcas na linha. Aqueles que não se aventurarem a ter voz própria, como Khodorkovsky, serão deixados em paz. É mais um exemplo da chamada "democracia administrada" do ex-homem da KGB. Da prisão, Khodorkovsky escreveu que "Putin provavelmente não é um liberal ou um democrata, mas é mais liberal e mais democrático que 70% da população". Já Baker e Glasser escrevem que a maioria dos russos, de fato, aceitou a troca entre "mais estabilidade" e "menos liberdade". É esta avaliação que reforça o tom desolador da crônica do casal de repórteres. Ambos são infatigáveis para dar exemplos do estilo não-democrático do governo Putin. Mais difícil é oferecer casos de insatisfação popular generalizada. O desempenho de Putin é um dilema para o presidente americano, George W. Bush, que ainda insiste em chamar o dirigente russo de "amigo Vladimir", apesar de periódicas admoestações para que se comporte mais democraticamente. O livro de Baker e Glasser seria muito instrutivo para Bush. A Casa Branca, aliás, acaba de informar que um dos livros que o presidente está lendo em suas férias no rancho do Texas é Alexander II: The Last Great Tzar, de Edvard Radzinsky. Alexander II ampliou o império russo entre 1855 e 1881, antes de ser assassinado. Resta saber o que fará Putin ao fim do seu segundo e supostamente último mandato em 2008. Será ainda mais desolador se ele armar um esquema continuísta e transformar sua "democracia administrada" em uma genuína república de banana. KREMLIN RISING |
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