|
Arábicas: Casas sobre o Nilo atraem estrangeiros no Cairo | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
São casas antigas, quentes e, no verão, infestadas de pernilongos. Mas estão atraindo muitos estrangeiros – inclusive eu –, que pagam para morar aqui pouco menos do que o aluguel de um bom apartamento nos melhores bairros do Cairo. O motivo é um só: estas casinhas estão flutuando no Nilo e têm como atração principal as grandes varandas debruçadas sobre um dos mais importantes – talvez o mais importante – rios da história. E os awmmas – nome em árabe destas casas-barco - também têm muita história para contar. Durante a Segunda Guerra Mundial, moraram nelas tanto oficiais britânicos servindo na Africa como espiões da Alemanha Nazista. Depois as casas de tornaram refúgios para egípcios – de anônimos motoristas de táxi a reputados intelectuais – que precisavam de um espaço privado, longe dos olhos conservadores da sociedade, para desfrutarem de prazeres proibidos. Um dos melhores retratos dessa época foi feito pelo escritor egípcio e prêmio Nobel Naghib Mafouz, no livro Conversas sobre o Nilo. A obra, que virou filme, conta a história de um grupo de homens e mulheres – incluindo artistas, funcionários públicos e jornalistas - que nos anos 60 se reunia diariamente em um awamma para noites de conversas profundas, acompanhadas de álcool, drogas e sexo. Repressão Nos anos 80 e 90, o governo egípcio começou a reprimir os awammas. Embora alguns bordéis e "clubes privados" mais simples tenham continuado a existir, a maioria deles se tornou moradia popular. O cenário começou a mudar só nos últimos anos, quando muitos estrangeiros e alguns egípcios das classes mais altas redescobriram os awammas como uma alternativa de moradia charmosa e a bom preço em uma cidade completamente congestionada. O Nilo, no trecho que atravessa o Cairo, é visivelmente poluído, mas não tem cheiro ruim, e diversos clubes de remo estão instalados nas margens. Debaixo de um sol de 40 graus, a tentação de pular da varanda direto na água é grande, mas a recomendação é resistir a todo custo. Apesar disso, é comum ver garotos egípcios flutuando correnteza abaixo nos dias mais quentes. Pescadores e pequenos barcos – as falucas – levando famílias ou grupos de amigos árabes ouvindo música em um passeio no Nilo são constantes dia e noite. Alguns awammas também se tornaram restaurantes caros e bastante concorridos. Morar em um barco começou a entrar na moda, os aluguéis subiram, e os awammas ancorados ao longo da praça Kit Kat – nome herdado de um cabaré que existia nos anos 60 – se tornaram um enclave de estrangeiros ocidentais num bairro tipicamente egípcio. Coisa parecida já aconteceu em outras cidades grandes do mundo, como Londres e Nova York: zonas centrais dessas cidades – desvalorizadas e com uma população pobre – passaram a atrair artistas, estudantes e jovens profissionais que mudaram a cara da região. Em inglês, o fenômeno recebeu o nome de gentrification - que já começa a ser traduzido em português com o neologismo "gentrificação" - mais uma tendência ocidental plantando suas raízes aqui pelo Oriente Médio. |
| |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||