|
Arábicas: Os monumentos egípicios à burocracia | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O Mougama é o prédio no centro do Cairo onde ficam todos os escritórios de atendimento ao público do governo egípcio. A enorme construção – que domina a principal praça do centro da capital – tem 18 mil funcionários e representa a quintessência da assustadora burocracia egípcia. Diz a lenda urbana - talvez exagerada, mas sem dúvida com algum fundo de verdade - que mais de uma pessoa já se atirou no fosso das grandes escadarias de mármore por puro desespero, depois de dias de esforços infrutíferos para conseguir um carimbo ou uma assinatura. Existe até uma famosa comédia egípcia na qual um cidadão, depois de horas sendo jogado de um lado para o outro, entra em desespero e parte para o "terrorismo". Com armas roubadas dos seguranças e aliados facilmente conseguidos nas filas, ele toma o Mougama de assalto para exigir a liberação de uma guia. Os estrangeiros que moram no Egito têm de ir ao Mougama para tirar ou renovar o visto de residente no país. Todos têm alguma história para contar a respeito da passagem por lá. Uma coisa que ninguém deixa de reparar são as funcionárias que, perto do fim do expediente (de 10h às 15h), deixam os guichês e vão para o fundo das salas cortar e descascar legumes para já chegar em casa com o almoço da família bem encaminhado. Não é de espantar que o governo egípcio prefira que detalhes sobre as entranhas da administração sejam divulgados o mínimo possível para o exterior. Tanto que jornalistas estrangeiros nunca têm que – e, na verdade, nem podem - pegar fila. Uma salinha com a placa "centro de imprensa internacional" tem funcionários que resolvem tudo numa fração do tempo que seria necessário por vias normais. Mas, depois de ter o documento nas mãos, qualquer jornalista com algum bom senso dá uma volta pelos intermináveis e congestionados corredores para ver os burocratas locais em ação. Correio Outro monumento à burocracia no Cairo é o prédio central dos correios. Tive que ir lá uma vez retirar algumas fitas de vídeo enviadas de Londres. Fitas de vídeo ou DVDs que cheguem de fora do país têm que ser vistos por um funcionário especializado na presença do destinatário – para impedir a entrada de pornografia (que é ilegal) e de material político considerado inconveniente. O prédio é velho, empoeirado, com máquinas enferrujadas, com um piso de borracha descolando já há algumas décadas e muitos, muitos funcionários a mais do que o necessário. Sair de lá com minhas fitas custou três horas, seis assinaturas e carimbos, um pagamento no caixa e explicações repetitivas a pelo menos uma dúzia de funcionários diferentes. Tudo isso não é por acidente: é uma estratégia deliberada e assumida, iniciada no governo Sadat (1970-1981), para impedir o desemprego por meio da distribuição de vagas públicas. Hoje são tantos funcionários que o governo teve de instituir um programa permitindo que uma parte deles trabalhe só dois dias por semana, recebendo 60% do salário, simplesmente porque não há o que fazer nem espaço nas repartições para tanta gente. Um brasileiro que há mais de 20 anos mora entre São Paulo e o Cairo me disse que a burocracia e o caos administrativo no Egito estão mais ou menos no nível que estavam no Brasil nos anos 70. "Nem Nelson Rodrigues conseguiria criar repartições públicas tão surreais quanto as daqui", completou. |
| |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||