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Arábicas: Paciência de muitos egípcios está chegando ao fim | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
É piada corrente entre os ocidentais morando no Cairo que não se vive no Egito sem se recorrer à IBM. Em um dos bares mais freqüentados por expatriados na cidade, as três letras têm lugar de destaque em uma grande placa no salão principal. Mas IBM nesse caso não é a grande empresa americana de tecnologia e sim uma expressão que combina três termos árabes: inch`Allah (se Deus quiser), bucra (amanhã) e maalish (algo como "não esquenta"). A brincadeira carrega uma carga de preconceito e esterótipo - dos quais os países latino-americanos também não estão livres -, mas revela uma paciência e um fatalismo religioso claramente presentes na sociedade e que ficam evidentes para qualquer um que passe algum tempo no Egito. Mas os protestos contra o governo do presidente Hosni Mubarak, que nos últimos meses se tornaram maiores, mais constantes e mais ousados, mostram que a resignação é uma característica cada vez mais em falta nos egípcios. O referendo marcado para esta quarta-feira a respeito da emenda consitucional mudando as eleições no país não deve trazer nenhuma surpresa em seu resultado, já que ninguém espera que a lei proposta pelo governo e já aprovada no Parlamento receba menos de 50% dos votos das pessoas que se dispuserem a ir às urnas. O nível dessa participação, no entanto, pode ser um bom indicativo da disposição do egípcio em aprovar as reformas políticas do modo como o governo as propõe e dar apoio a elas. Três dos principais partidos da oposição egípcia – o marxista Tajamoa, o centrista-liberal Wafd e o pan-arábico Nasserista – decidiram pedir aos seus partidários que boicotem o referendo. Teoricamente, a emenda permitiria que mais candidatos concorressem nas eleições de outubro – desde a fundação da república egípcia, em 1952, as eleições são de candidato único. Mas os oposicionistas dizem que a nova proposta de Mubarak cria uma caricatura de eleições abertas ao mesmo tempo em que garante a vitória do candidato do governo. “Todo mundo no Egito concorda com a mudança do artigo 76 (da Constituição, que trata das eleições). O problema é o modo como esta emenda foi feita pela Assembléia do Povo (a câmara baixa do Parlamento)”, disse o presidente do Tajamoa, Rafat Al-Sayed, no dia em que o boicote foi anunciado. A Irmandade Islâmica – que, embora proibida de se organizar em um partido politico, é reconhecida como uma das principais forças de oposição – também apoiou o boicote e prometeu aumentar ainda mais a pressão sobre o governo. A última vez que o Egito assistiu a grande revoltas populares foi em 1977 quando reformas liberais do presidente Anwar El-Sadat acabaram com os subsídios ao óleo, à farinha de trigo e ao arroz e jogaram nas alturas o preço do tradicional pão – o baladi -, que forma a base da alimentação de muitos egípcios pobres. Por 36 horas em janeiro daquele ano, o quebra-quebra se generalizou no país, e o Exército teve que ir para as ruas conter manifestantes, numa ação que teria deixado pelo menos 800 mortos. A situação só se acalmou quando o governo desistiu de cortar os subsídios à comida. Desde então o baladi – semelhante ao que no Brasil costuma-se chamar “pão sírio” - não aumentou mais de preço. As padarias autorizadas a produzir pão subsidiado compram a tonelada da farinha pelo equivalente a R$ 150 (no mercado o preço chega a R$ 900) e vendem o quilo do pão pelo equivalente a R$ 0,22. Mas também nos últimos meses – ao mesmo tempo que a temperatura aumentava no campo político – começaram a se tornar mais comuns as filas nas padarias oficiais, e as ocasiões em que as cotas de compra de pão foram limitadas para cada consumidor. Talvez discussões políticas, sistemas eleitorais e nomes de ministros não consigam atingir a massa da sociedade egípcia a ponto de acabar com a paciência dela, mas o preço do pão é algo que todo mundo sente no bolso e no estômago. O presidente Mubarak está navegando por águas agitadas quando tenta ao mesmo tempo fazer manobras políticas e administrar uma economia em crise, isso tudo enquanto sopram no Oriente Médio os ventos de mudança de que tanto se fala no Ocidente. É cedo para dizer para que lado serão essas mudanças, mas é certo que a ventania pode ser sentida também aqui no Egito, um país com 70 milhões de habitante e peso regional suficiente para transformar qualquer brisa em furacão. |
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