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Arábicas: Ultrapassando a barreira da ignorância | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Egípcios - motoristas de taxi em particular - gostam muito de conversar, e diversas vezes por dia conto para alguém que sou do Brasil ("Ana min Barasil"). A resposta é sempre um sorriso e um nome: Ronaldinho, Ronaldo, Roberto Carlos ou (os mais velhos) Pelé. Há também um brasileiro famoso no Cairo, Carlos Cabral, que era técnico do Zamalek - um dos dois principais times de futebol do Egito. Mas ele foi demitido no fim do mês passado, depois de uma péssima temporada. Muitos - mas não todos - sabem que no Brasil fala-se português, e de vez em quando alguns lembram de belas mulheres e do Carnaval. Música e café brasileiros também aparecem em conversas, mas mais raramente do que no contato com europeus e americanos. No geral, o que se conhece sobre o Brasil acaba por aí, não só no Egito como na maioria dos outros países árabes. Já no Brasil sabe-se um pouco mais sobre o mundo árabe contemporâneo, mas especialmente porque é praticamente impossível não ouvir falar de uma guerra no Iraque e algum tipo de confusão envolvendo isralenses e palestinos. Cúpula Brasília abriga, nesta semana, a Cúpula dos Países Árabes e Sul-Americanos, apresentada pelos anfitriões brasileiros como uma oportunidade inédita de contato entre esses dois lados do mundo em desenvolvimento. No mundo árabe a simpatia pela idéia é inegável. Empresários e governos assumem ignorância sobre o Brasil e a América do Sul e dizem que o problema tem que ser corrigido dos dois lados. A recompensa de que mais se fala nessa cúpula é o aumento no fluxo econômico. A reunião foi convocada principalmente para discutir comércio, investimento e cooperação. A expectativa era de que temas políticos delicados - presentes na América do Sul mas bem mais claramente no Oriente Médio - ficassem em um segundo plano.
Mas o encontro é também claramente um oportunidade política, que a diplomacia brasileira deve aproveitar para promover o princípio das relações sul-sul adotado pelo governo Lula. A idéia de promover relações mais fortes entre os países em desenvolvimento também é bem vista no mundo árabe. A relação desses países com os Estados Unidos está se tornando mais difícil, tanto por pressões internas quanto por modificações na postura americana em relação à região, representadas, por exemplo, nas cobranças por democracia do presidente Bush. Comércio No campo comercial, o potencial dos países árabes é de fato grande. Segundo uma pesquisa da Câmara de Comércio Brasil-Árabe, os 22 países árabes importam 90% do que consomem, gastando um total de US$ 220 bilhões por ano. O Brasil exporta cerca de de US$ 4 bilhões desse total (e importa mais ou menos o mesmo). O Brasil é apontado pelos árabes como peça chave no contato com a América do Sul. No campo econômico, porque o Brasil é a maior economia da região e no político porque o país é visto como um partidário de importantes causas árabes e da política sul-sul. Os potenciais econômicos e políticos de uma união mais consitente entre as duas regiões são grandes, mas as dificuldades para realizá-los também são. A distância que separa as duas regiões e as duas culturas - que, por sinal, se entrelaçaram séculos atrás na Península Ibérica - é hoje em dia enorme. Mas é um trabalho a ser iniciado. Os países árabes têm que ser observados com muita atenção porque mudanças estão acontecendo cada vez mais rápido por aqui, e estes próximos meses e anos prometem muita movimentação. Esta coluna pretende colaborar acompanhando o dia-a-dia do Oriente Médio num momento tão rico de informações e trazer toda semana histórias ou pequenos detalhes que ajudem a colocar mais algum contexto em torno de tanta notícia saindo de terras distantes. |
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