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Um ano após saída de Aristide, maior desafio do Haiti é obter pacto nacional | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Exatamente um ano depois de o ex-presidente Jean-Bertrand Aristide deixar o Haiti em meio a uma violenta revolta civil, o maior desafio do país é forjar um pacto nacional que inclua os partidários do ex-presidente no processo de transição. "Infelizmente a história do Haiti é carregada de processo em que os vencedores estão sempre destruindo aqueles que foram vencidos e a grande luta da missão da ONU é para que se estabeleça um processo de reconciliação nacional e todos sejam trazidos à mesa de negociação", afirma o capitão-de-fragata Carlos Chagas. Chagas é assistente do comandante das forças de paz da ONU no Haiti, o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, também brasileiro. O cientista político Anthony Pereira, da Universidade de Tulane, nos Estados Unidos, afirma que alguns setores do governo interino haitiano parecem pouco dispostos a envolver o partido Família Lavalas, de Aristide, no processo de transição. Vários aliados do ex-presidente, incluindo dois ministros, estão presos e há denúncias de prisões irregulares e execuções sumárias. 'Consenso' Para Pereira, para que o Haiti consiga ter um governo legítimo, será preciso mais do que realizar as eleições previstas para novembro deste ano. "A parte fácil é organizar as eleições. A parte mais difícil e talvez fundamental é resolver os conflitos principais dentre os grupos políticos", diz o analista. "Temos outros exemplos em que houve eleições que não resolveram tensões políticas, como Angola e Camboja, e os conflitos voltaram." Segundo o analista, é preciso buscar "pelo menos um consenso parcial que inclua esses grupos, incluindo o partido Lavalas e os ex-soldados (do Exército destituído por Aristide em 1995)". Pereira acredita que Aristide tem um poder simbólico atualmente no Haiti, mas que a sua influência tende a diminuir com a inclusão dos que o apóiam no processo de transição. Papel da ONU Ele diz que cabe justamente à ONU estimular o diálogo entre as diferentes facções do Haiti, mas lembra que a entidade está numa posição difícil, sendo pressionada a atuar mais na parte militar, no desarmamento de partidários de Aristide e de ex-soldados. "A ONU está no meio das pressões fortes. É realmente difícil para as Nações Unidas fazer muito mais do que manter uma presença, encorajar os grupos a dialogar e evitar os piores confrontos. O tamanho da força também não é suficiente para esse tipo de papel (desarmar os grupos)." O comandante Chagas rebate as críticas, alegando que a Minustah é uma força de paz, e não de ocupação. "A força de paz está presente nos principais locais. A violência, caso precise ser utilizada, é dirigida contra pessoas que estiverem agredindo a própria força ou a sociedade civil haitiana. Existe uma cobrança de determinados grupos que querem que a força atue com mais vilolência, mas a atuação se dá estritamente dentro das normas das Nações Unidas." Coordenação Além das críticas, as forças de paz estão tendo dificuldades na coordenação com a polícia nacional haitiana, a quem estão lá para apoiar segundo o mandato da ONU. O comandante Chagas afirma que a coordenação é "muito boa nas grandes datas", como o aniversário da independência do país e outras com possibilidade de manifestações violentas, mas que no dia-a-dia a polícia haitiana muitas vezes não informa a Minustah sobre as operações que está conduzindo e pede ajuda quando já está "em apuros". Foi assim num cerco à casa de um dos principais líderes rebeldes do país, na fuga em massa do principal presídio nacional e neste fim de semana, quando confrontos em Bel-Air, reduto de partidários de Aristide, deixaram seis mortos. Três soldados brasileiros ficaram feridos em operações de apoio na região, embora tenham chegado lá quando a operação da polícia já havia terminado. "Registre-se que a ação realizada pela PNH (Polícia Nacional Haitiana) no bairro de Bel-Air não era do conhecimento da Brigada Brasileira de Força de Paz e nem teve a participação das tropas brasileiras da Minustah", diz uma nota divulgada pela força de paz. "A gente tem reagido muito a isso (a polícia nacional pedindo ajuda quando já está com problemas), dizendo que a operação tem que ser planejada em conjunto", diz Chagas. "Mas a situação fica sempre difícil. É sempre um dilema muito grande, entre apoiar e não apoiar porque, afinal, o mandato prevê o apoio. Então nós estamos fazendo uma gestão muito forte no sentido de que qualquer operação em que exista a possibilidade de participação da Minustah que a operação venha a ser previamente coordenada através do centro de operações combinadas." |
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