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Atualizado às: 17 de fevereiro, 2005 - 12h16 GMT (10h16 Brasília)
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Presença militar síria divide libaneses

Libaneses lamentando a morte de Rafik Hariri
Alguns libaneses responsabilizam a Síria por morte de Hariri
O assassinato do ex-primeiro-ministro libanês Rafik Hariri, na segunda-feira, esquentou a polêmica entre os libaneses sobre a presença de tropas sírias no país.

O debate sobre a permanência de soldados sírios em território libanês (hoje são 15 mil) não é nova, mas ganhou força após o assassinato, que gerou críticas dentro e fora do Líbano em relação ao papel da Síria na política local.

O governo americano não acusou a Síria diretamente pelo atentado, mas afirmou que a presença militar coloca sobre os sírios “uma responsabilidade especial pelo tipo de desestabilização que aconteceu” no país. Muitos dos libaneses que foram ao enterro de Hariri carregavam faixas acusando o governo Sírio de ter patrocinado o ataque.

Os militares em território libanês são remanescente do contingente deslocado para o país no fim dos anos 80 para ajudar a estabilizar e acabar com a guerra civil.

“Acho que as forças sírias têm de sair do Líbano, mas isto tem de acontecer de maneira calma e acordada entre os dois países. Não podemos ignorar as importantes relações políticas, culturais, econômicas e geográficas que há entre nossas nações”, disse à BBC Brasil o ex-ministro dos Transportes e Obras Públicas no último governo de Rafiq Hariri, Najib Mikati.

Para outros, no entanto, a situação delicada do Oriente Médio e a estabilização recente no Líbano fazem a presença síria ainda necessária.

Ocupação

O dirigente da Dar el-Fatwa libanesa (entidade que coordena as atividades seculares da religião muçulmana no país), xeque Abdul Nasser el-Khatib, diz que a situação não pode ser descrita como uma ocupação, porque as tropas Sírias entraram no Líbano a pedido do governo.

“A Síria teve um papel muito importante no encerramento da guerra civil no Líbano e os laços são muito grandes entre os dois países”, diz o líder religioso.

“Todos sabemos que a situação no Oriente Médio continua muito delicada. Parte do Líbano continua ocupada por Israel e isto coloca a região toda numa situação muito delicada”, diz o xeque ao explicar os motivos que justificam a presença síria tantos anos depois do fim da guerra civil libanesa.

O governo da Síria diz que pretende cumprir a resolução 1559 da ONU (que pede a saída de todas as forças estrangeiras e milícias de território libanês, sem citar países específicos) e inclusive já deslocou os seus soldados para zonas próximas à fronteira entre os dois países.

“A Síria não tem nenhum interesse em ficar no Líbano para sempre e há discussões em curso sobre a retirada. Nossas forças ajudaram a parar a guerra civil por lá e agora estamos trabalhando duro para termos certeza de que o Líbano vai continuar sendo um país estável e seguro”, diz o editor-chefe do jornal governista Syrian Times (editado em inglês na capital, Damasco), Fouad Maldoud.

O jornalista diz que não vê nenhum sentido nas suspeitas de que a Síria teria promovido o atentado que matou Hariri.

“Não há nenhum país no mundo que seria tão afetado pela desestabilização do Líbano quanto a Síria”, argumenta.

Maldoud diz que as referências à Síria e a convocação da embaixadora americana em Damasco para consultas em Washington são apenas mais um passo no processo de pressão americana sobre a Síria.

“Os americanos estão fazendo pressão sobre a Síria há muito tempo e não acho que isto esteja acontecendo agora por causa da morte de Hariri”, diz.

O governo sírio nega veementemente qualquer participação no episódio e autoridades do país fazem questão de descrever Hariri como um grande amigo, embora o ex-primeiro-ministro tenha adotado posições contrárias à presença militar síria nos meses que antecederam a sua morte.

“Ele (Hariri) não era um opositor claro da influência síria no Líbano e estava cooperando muito conosco. Hariri era uma das lideranças libanesas com as quais vínhamos cooperando há muitos anos”, disse à BBC a ministra para assuntos de emigrantes da Síria, Bouthaina Shaaban.

Alvo

O ex-ministro libanês Najib Mikati prefere não falar sobre os possíveis autores do ataque mas teme que ele acabe mergulhando o Líbano de novo em uma situação de violência e instabilidade.

“Rafiq Hariri era um político moderado, que pensava no desenvolvimento e no futuro. Olhando para este crime, me parece que o alvo era a estabilidade libanesa”, disse Mikati, atualmente deputado no parlamento do Líbano.

O xeque Khatib, ao contrário, vê poucos riscos de a violência voltar a dominar o país.

“O povo libanês está desgastado e sofreu muito naqueles dias negros de sua vida (durante a guerra civil). O povo está muito chocado mas tenho certeza que nenhuma seita ou facção quer voltar a viver aqueles tempos de guerra”, diz.

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