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Atualizado às: 02 de fevereiro, 2005 - 09h18 GMT (07h18 Brasília)
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Pra não dizer adeus
Ivan Lessa
Para ficar num clima carnavalesco, que eu também, cá em algum confim de minh´alma, me fantasio de legionário (aquele de azul, não o cor de areia) e penetro no baile do Havai, no Iate Clube do Rio, vou cantarolando baixinho pelo metrô londrino aquela beleza de samba que a Aracy de Almeida gravou, o “Não Me Diga Adeus”, do Braguinha, se não me engano.

Era um lugar-comum dizer-se, na época, que “no fundo, no fundo, o carnaval é uma festa muito triste”. Ora, pipocas, “no fundo, no fundo” tudo é muito triste. Inclusive e principalmente cantarolar baixinho, em país dos outros, sambas antigos e esquecidos do carnaval carioca.

Quantos sambas não falam das tristezas do adeus? Ou tangos? Fox-trotes? São cinco letras que choram, como berrou no acetato o Chico Alves, certo? Agora, vou um pouquinho mais longe. No tempo, no espaço.

E dizer adeus pra namorada em plataforma de trem? Essa é de derrubar qualquer um. De preferência – e admitamos nosso nostálgico masoquismo – ela indo embora num trem de ferro a vapor.

Aliás, a ordem dos fatores não altera o produto. Pode ser igualmente fossento, a gente (eu, o amigo aí) estar indo embora e ela, a moça, lá na plataforma, no meio da fumaça do trem, agitando lenço branco e se esvaindo em lágrimas, como era a praxe pretérita.

Corte rápido para 2005: ninguém mais se esvai, se debulha, se permite uma furtiva lágrima no canto do olho. No máximo, um beijinho de ar, aquele do “mwahh!”, e bái-bái, ciao, a gente se vê. É científico, como tudo que escrevo.

Uma pesquisa realizada pela Midland Mainline, que opera os trens entre Londres e Leeds, concluiu que os casais de hoje em dia nem chegam a se acompanharem às plataformas, mal acenam um para o outro.

O tempo urge, o tempo ruge, conforme se diz. Como todo mundo está o tempo todo indo embora para algum lugar, dizer adeus, ainda mais chorando, deixou de fazer sentido.

É possível. Pra mim, é culpa do trem elétrico. Lágrima, só com trem soltando aquele vapor, conforme o atestam todos aqueles filmes antigos.

Projeto LondresEspecial Londres
Cidade terá rua sem calçadas nem sinais de trânsito.
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