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Caio Blinder: Republicanos de Bush escolhem o rumo da direita | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Direita, volver. Mais à direita ainda. Esta é a ordem unida dos republicanos após o triunfo nas eleições de 2 de novembro. Já os democratas não sabem como e para onde marchar. E existe muita pressão porque a rigor começou a contagem regressiva para as eleições de 2008, inclusive com o exercício meio fútil de discutir quem é o melhor candidato para enfrentar os republicanos dentro de quatro anos. O estado de espírito dos derrotados varia tanto como a divisão entre Estados vermelhos (republicanos) e azuis (democratas). Para alguns existe simplesmente uma visão tenebrosa que no extremo resulta em folclore. O Talebã chegou aos EUA com este triunfo republicano e a única saída é cruzar a fronteira para o Canadá. Mas alguns democratas já abandonaram a flagelação e o humor negro. Absorveram a derrota e até argumentam que não foi tão catastrófica assim. John Kerry até que se deu bem. Polarização A polarização no país deixou de ser 50 a 50 para se tornar 51 a 48. O negócio é se organizar para 2008. O próprio Kerry fez um chamado às armas na sexta-feira, dizendo, em linhas gerais, que não há recuo e que é preciso confrontar o inimigo republicano. É sintomático que esse chamado às armas tenha ocorrido um dia após a inauguração da biblioteca presidencial Clinton, onde se cumpriu o ritual da união nacional. Para quem não pretende partir para o Canadá, os dilemas locais são intensos. Uma corrente democrata diz que não se deve pagar penitência. O partido vai recuperar votos combatendo os argumentos morais que foram tão valiosos para a vitória republicana com populismo econômico. O drama é que ninguém sabe exatamente explicar o que são e qual é a importância desses valores morais. Andrew Kohut, do centro de pesquisas independente Pew, diz que há sobrevalorização do fator. Sem riscos O que realmente contou para a vitória de Bush foi uma confluência de fatores, mas basicamente os americanos se sentiram mais à vontade com a capacidade de liderança do presidente e não quiseram arriscar com Kerry. De qualquer forma, autores como Thomas Frank argumentam que os republicanos investiram em uma guerra cultural para mascarar a velha luta de classes. Colocaram os democratas como elitistas e devassos num discurso populista sem perigos para a América corporativa. A base mais esquerdista gosta dessa via do populismo econômico e fica desconfiada de uma "terceira via" associada ao ex-presidente Bill Clinton, que ao discursar na inauguração de sua biblioteca em Little Rock, Arkansas, disse que gostava tanto de Bush como de Kerry. Essa corrente prega uma conversão parcial à religião republicana, buscando fundir um conservadorismo fiscal com uma moderação em assuntos sócio-culturais como aborto e casamento gay, linha-dura em política externa e uma conexão sentimental com os problemas do americano comum. Em uma típica metáfora clintoniana "é preciso construir uma ponte entre a América vermelha e a azul". Reeleição Como fórmula eleitoral funciona, desde que o candidato tenha carisma. A prova está na reeleição de Clinton em 1996, o único democrata a conseguir este feito desde Franklin Roosevelt, em 1936. Tanto Kerry, agora, como Al Gore, no ano 2000, não conseguiram faturar nenhum Estado do sul americano quando concorreram. O historiador Robert Dallek observa ser muito cedo para se dizer se as habilidades táticas do clintonismo funcionam a longo prazo. Ele pondera que ainda não sabemos se os oito anos de Clinton no poder foram apenas um hiato na consolidação conservadora no país ou não. Bruce Cain, professor da Universidade de Berkeley, na Califórnia, diz que os republicanos representam o "paradigma dominante". Desde o começo da década de 70, o boom econômico do pós-guerra transformou os EUA em uma sociedade com uma classe média majoritária, o que tornou difícil para o Partido Democrata sustentar seu liberalismo e assistencialismo social tradicionais. O clintonismo talvez seja uma ponte improvisada para o século 21. Já o populismo econômico seria uma ponte para o século 19. Surpresas Determinismo histórico não deve sepultar as esperanças democratas. Além de rezar por dias melhores, o partido de John Kerry, Bill Clinton e Howard Dean precisa levar em conta que a história é uma caixinha de surpresas. Há paradigmas, mas mandatos eleitorais podem ser fugazes. Há exatamente 40 anos, a flagelação era dos republicanos. Lyndon Johnson trucidou o republicano Barry Goldwater nas urnas. Ele faturou 61% por votos. No Senado, a maioria democrata era de 68 a 32, e na Câmara, de 295 a 140. Quatro anos mais tarde, com o atoleiro no Vietnã, Johnson nem concorreu à reeleição. Foi a vez da maioria silenciosa do republicano Richard Nixon. |
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