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Debates exibem profundas divergências ideológicas | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Na reta final da campanha eleitoral americana, e em particular após três debates presidenciais, fica patente que existe um debate ideológico entre George W. Bush e John Kerry. E é um debate em termos clássicos. De um lado, os republicanos conservadores. Do outro, os democratas liberais. São categorias americanas, mais conhecidas no resto do mundo como "direita x esquerda". São rótulos reforçados pelo presidente Bush por convicções e também conveniências de campanha. Isso ficou especialmente claro no último debate, na quarta-feira, quando o atual ocupante da Casa Branca, acusado por tantos de ser um radical de direita, tratava o senador democrata como se ele fosse um radical de esquerda. Idéias Bill Schneider, o cientista político e comentarista da rede de televisão CNN, insiste que a atual campanha tem sido exageradamente negativa. É resultado da polarização e do cinismo do eleitorado. Uma campanha positiva seria recebida com incredulidade. O eleitor prefere acreditar nas más intenções de um candidato, denunciadas exaustivamente pelo adversário. Mas há um real embate de idéias e filosofias em questões de segurança nacional, economia e temas domésticos. Ufa! Pelo menos no centro da campanha, não há mais lugar para a controvérsia espúria sobre o que Kerry e Bush fizeram (ou deixaram de fazer) na guerra do Vietnã. Há troca de acusações sobre o que foi feito ou não no Iraque, que é o atoleiro do presente. E, mais importante, um conflito de visões. Tema básico Como lembrou David Brooks, colunista do New York Times, os dois candidatos debatem o tema central do mundo contemporâneo: como desenhar a ordem internacional após o 11 de Setembro e qual é o papel americano no cenário? Mesmo no último debate, supostamente sobre economia e questões domésticas, não deu para escapar do tema básico. Bush visualiza uma ordem mais flexível na qual os EUA têm uma grande, quase imponente, margem de manobra. Kerry concebe uma ordem mais planejada, ainda com hegemonia americana, mas que exige uma colaboração internacional mais organizada. Para o republicano, o projeto de Kerry reflete fraqueza. Para o democrata, o projeto de Bush demonstra uma arrogância incompetente. Nas questões econômicas e domésticas também há diferenças marcantes. Para Bush é uma questão de exaltar o espírito empreendedor e saudar o corte de impostos. Para Kerry, a chave é compartihar as dores de trabalhadores desolados e clamar por reformas no sistema de saúde. Bush é consistente para encorajar os cidadãos a cuidar de suas próprias necessidades, como saúde e aposentadoria, em vez de buscar a proteção do governo ou empregadores. 2 de novembro Kerry adverte que o governo é importante em tempos de turbulência, justamente para proteger famílias e trabalhadores. A premissa de Karl Rove, o guru eleitoral de Bush, é que justamente nestes tempos de turbulência, especialmente nas questões de segurança nacional, os americanos não terão apetite por mudança. Vão manter o comandante-em-chefe no meio da guerra. Mas há momentos na história em que a relutância é vencida pelo desencanto. Assim os democratas perderam o poder na Guerra da Coréia em 1952 e no Vietnã em 1968. Antes dos três debates, havia uma contida expectativa entre os republicanos de que nos embates frente a frente o presidente iria enterrar as esperança de Kerry. Nada disso. Bem ao seu estilo, o democrata se recuperou e até colocou Bush na defensiva. A guerra eleitoral (e de idéias) continua até 2 de novembro, com as armas ainda mais afiadas. |
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