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Morte representa oportunidade para diplomacia americana | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O presidente George W. Bush disse diversas vezes para seus principais assessores que jamais irá cair na armadilha de intermediar infindáveis negociações de paz entre israelenses e palestinos. Foi um processo que exauriu o seu antecessor Bill Clinton. Tal aversão foi a desculpa para Bush se desengajar da diplomacia. Mais do que isto, ao seu estilo, ele foi unilateral. Cimentou suas relações com o governo do primeiro-ministro Ariel Sharon e marginalizou o líder palestino Yasser Arafat. Mesmo isolado em Ramallah, na Cisjordânia, Arafat foi a desculpa para a Casa Branca lavar as mãos. Nada poderia ser feito enquanto o lendário líder palestino tivesse influência. A saída de cena de Arafat agora é uma oportunidade histórica para Bush sujar as mãos num árduo processo diplomático. Desperdício Para Bill Clinton, não há dúvida que Arafat teve esta oportunidade histórica e a desperdiçou. O ex-presidente nunca escondeu sua amargura. Na sua última conversa com Arafat, antes de deixar o cargo, Clinton disse que não se tornara um estadista com um grande feito porque o líder palestino não tivera a ousadia para fechar um acordo histórico com Israel. Na visão de Clinton, era uma paz imperfeita, mas uma paz realista. Hoje os palestinos teriam a faixa de Gaza e mais de 95% da Cisjordânia. Clinton insiste que o acordo estava ali, a mão, inclusive com as linhas-mestras sobre a divisão de Jerusalém. Na avaliação do ex-presidente, Arafat recuou porque não conseguia se reconciliar com a idéia de paz. Num editorial na semana passada, que funcionou como um obituário antecipado de Arafat, o The New York Times observou que ele "não teve a coragem de dizer sim". A visão de muitos palestinos é outra. O falecido ativista e ex-professor da Universidade de Columbia Edward Said nunca se impressionou com as concessões israelenses ou com o empenho de Clinton. Said estimava que, na verdade, Arafat fora conduzido para uma armadilha e escapou na hora H. O próprio The New York Times, no editorial-obituário, reconheceu que talvez Arafat tenha antecipado que a massa palestina iria reagir com frustração a um acordo imperfeito, mas realista. Mas foi o próprio Arafat que, ao longo da história, inflou as expectativas do seu povo. Encruzilhadas Não há dúvida que nenhum presidente americano irá alterar as linhas fundamentais da íntima aliança do país com Israel, mas Bill Clinton de fato foi a coisa mais próxima que os palestinos tiveram como um aliado na Casa Branca. Arafat - por décadas tratado como um delinquente político por presidentes americanos - era visitante constante em Washington nos tempos de Clinton. O momento culminante foi a assinatura dos acordos de princípios por ele e Yitzhak Rabin em setembro de 1993 nos jardins da Casa Branca e a imagem memorável do aperto de mão entre os dois dirigentes. E de pensar que Jimmy Carter, o presidente que conseguiu mediar um acordo de paz entre Israel e Egito, precisou demitir seu embaixador na ONU porque ele tivera um mero contato com um funcionário da Organização para a Libertação da Palestina. Os tempos efetivamente mudaram. E de pensar que Bush foi o primeiro presidente americano a reconhecer o direito palestino de ter um Estado. A história é pontilhada por encruzilhadas. No caminho há oportunidades para serem desperdiçadas ou não. Sem Arafat no meio do caminho, Bush, Sharon e a nova liderança institucional palestina terão novas oportunidades. |
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