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Atualizado às: 17 de novembro, 2004 - 23h48 GMT (21h48 Brasília)
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Praia é único alívio para palestinos na Faixa de Gaza

Menino correndo do campo de refugiados de Campo Praia, na Faixa de Gaza
Taxa de desemprego na Faixa de Gaza é superior a 60%, segundo o Bird
Os palestinos da Faixa de Gaza costumam dizer que vivem em uma prisão com vista para o mar. Nessa faixa de terra de cerca de 45 km de extensão por pouco mais de 10 km de largura, é justamente essa vista para o mar que alivia – ao menos um pouco – a dura realidade de mais de 1,4 milhão de pessoas.

Sem cinemas, teatros ou qualquer tipo de atividade cultural pública, a praia é a única opção de lazer para a grande maioria dos palestinos vivendo na região.

É também o único horizonte que não é dominado por helicópteros e soldados israelenses, que controlam todas as saídas tanto para Israel, ao norte e ao leste, como para o Egito, ao sul.

“Além de alguns cafés e uma praça principal, a praia é lugar que temos para ir”, diz o vendedor de frutas Hazan Abu Sharqh, morador da Cidade de Gaza, a principal da Faixa de Gaza.

Lixo

Sharqh tem 19 anos e não pode sair de Gaza porque não tem documentos que permitam que deixe a região.

Ele faz parte dos 64% da população que são considerados refugiados e não têm o direito de ir para nenhum outro lugar, nem de Israel nem dos outros territórios ocupados – a viagem para outros países depende de um bom motivo e de uma autorização israelense que raramente é concedida.

A orla da Faixa de Gaza pode ser bastante distinta. Na frente do campo de refugiados que leva no nome de Beach Camp, ou Campo Praia, a faixa de areia é estreita, inclinada para o mar e cheia de lixo.

O campo é uma das áreas mais pobres da região que compõe a Cidade de Gaza, embora a pobreza seja algo absolutamente geral.

Hotéis

Em uma área mais central da cidade, há hotéis de alto padrão adornando a costa – a maioria deles vazios.

“Temos oito hotéis na cidade, mas apenas dois estão realmente na ativa”, conta Kaled Abu Habel, gerente do Beach Hotel (Hotel Praia), que, como sugere o nome, fica de frente para o mar – a praia em frente ao hotel é um pouco mais limpa do que na área do campo de refugiados.

Antes da intifada, a revolta palestina que começou em 2000, a Faixa de Gaza era visitada por turistas estrangeiros, israelenses e, principalmente, muitos palestinos da Cisjordânia, que fica a no mínimo uma hora de carro.

Após o levante, que foi respondido por Israel com o fechamento completo da Faixa de Gaza e grandes restrições de circulação dentro do próprio território, os turistas desapareceram.

Eles passaram a ser substituídos por jornalistas, “que aparecem sempre que acontece um desastre”, diz Habel.

Apesar de os desastres serem comuns em Gaza, o fluxo de jornalistas não é suficiente para compensar a perda de turistas.

Segundo Basel Elewa, presidente da Associação de Hotéis da Faixa de Gaza, apenas um dos 19 hotéis que existem em toda a região fechou nos últimos quatro anos.

Faixa de Gaza
Mais de 1,4 milhão de habitantes
Taxa de desemprego superior a 60%
Mais de 70% da população vive com US$ 2 por dia
64% são considerados refugiados

“Mas isso porque os hotéis são todos de propriedade familiar e seus donos preferem praticamente parar de funcionar a realmente fechar o negócio”, diz ele.

No entanto, ela dá números para dimensionar o desaparecimento dos turistas: antes de 2000, a ocupação média anual dos hotéis era de 53%, hoje não passa de 5%.

Pescadores

Embora seja a grande atração em Gaza, pouco agente vai à praia nesta época do ano, porque é inverno e, embora as temperaturas possam passar facilmente dos 25 graus, o vento frio e a temperatura da água afastam as pessoas.

Em todo território, existe apenas um porto digno do nome, na Cidade de Gaza, e nele apenas se vê pequenos barcos de pescadores, uma atividade também em declínio.

Boa parte das pessoas vive de ajuda externa, seja da Organização das Nações Unidas (ONU), de ONGs ou de caridade particular.

“Eu tenho oito filhos e a minha mulher para sustentar, mas não tenho dinheiro nem para comprar pão. Se não fosse a ajuda, não teria o que fazer”, diz o sorveteiro Majed Al Faseh.

Sua máquina de sorvetes de massa fica numa rua movimentada da Cidade de Gaza e o sorvete custa apenas cerca de R$ 0,60. Mesmo assim, no dia em que a reportagem da BBC Brasil o entrevistou ele não tinha vendido um único sorvete, isso depois de quatro horas de trabalho.

No interior

Mas se a vida já parece suficientemente dura perto do mar, a situação é ainda pior em regiões mais afastadas ou em campos de refugiados que ficam na linha de tiro entre os militantes palestinos e Israel.

Esse é o caso do campo de refugiados de Jebalya, que fica ao norte da Cidade de Gaza e a poucos quilômetros da fronteira com Israel.

Os israelenses dizem que militantes palestinos utilizam os morros em que fica o campo, formado basicamente por casas de alvenaria e pequenos prédios, para lançar foguetes contra alvos em Israel.

Entre outubro e setembro passados, como resposta ao lançamento de mísseis supostamente de dentro do campo, o governo israelense determinou uma incursão e a destruição de casas em áreas que poderiam esconder militantes.

O resultado foi a destruição, segundo a contagem palestinas, de 150 casas e a morte de 120 pessoas ao longo de uma operação de duas semanas.

Tahanee Abo Rokba, de apenas 10 anos, testemunhou a destruição da casa de seus avôs e viu um primo ficar gravemente ferido na operação.

Para ela, não importa o que os isralenses façam, nem a sua família nem a as outras que moram na região vão sair de lá. “Eu não quero e não vou sair daqui”, diz de forma determinada.

Rokba afirma que mal vai a outros lugares da Faixa de Gaza e que, há bastante tempo, não vê o mar.


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