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Morte redime Arafat no mundo árabe | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A julgar pela sessão especial da Liga Árabe realizada em sua homenagem neste sábado no Cairo, Yasser Arafat era um líder árabe como todos os outros ou até mais importante – mesmo representando uma nação que não tem um Estado. Um dia após um pomposo velório no Cairo, Abu Amar, como também é conhecido na região, foi lembrado com honras de chefe de Estado. Nem a morte do presidente dos Emirados Árabes Unidos, Xeque Zayed, mereceu a convocação de uma sessão extraordinária. "Era o mínimo que (os países árabes) poderiam ter feito, dada a importância do presidente Arafat nesta região", afirma a jornalista e escritora egípcia Randa Ashmawi. Em vida, no entanto, Arafat nem sempre foi bem-recebido em países árabes. Embora tenha sido acolhido por vários regimes da região em seus longos anos de exílio, ele chegou a ser expulso da Jordânia e do Líbano e era conhecida a sua desconfiança em relação aos líderes árabes. Presença Segundo o jornal libanês publicado em inglês Daily Star, Arafat teria se queixado uma vez de que a primeira pergunta que lhe faziam quando ele pisava em um país árabe era quando ele iria embora. "Arafat era um peso no mundo árabe, como um parente na família que tem um problema que nunca foi resolvido", afirma Randa. Segundo a jornalista, no caso da Jordânia e do Líbano, a presença de Arafat era um fator de "desequilíbrio interno" dado o grande número de refugiados palestinos que vivem nesses países. Na Jordânia, estima-se que metade da população tenha origem palestina. Em países mais pró-ocidentais, como o Egito e a Tunísia, havia o temor de que acolher Arafat poderia lhes causar problemas com os Estados Unidos – o que não impediu o governo tunisiano de abrigá-lo por 12 anos, entre 1982, quando foi expulso do Líbano, e 1994, quando voltou a Gaza. Além disso, Arafat se indispôs com governos da região em mais de uma ocasião, embora nada tenha se comparado ao seu desastroso apoio à invasão do Kuwait pelo então presidente iraquiano Saddam Hussein, em 1990. Paz O isolamento durou pouco. Três anos depois, ele recebia o Prêmio Nobel da Paz pelo acordo de Oslo com Israel. Nem toda a comunidade árabe aceitou o acordo na época – o então presidente sírio, Hafez Assad, nunca perdoou Arafat –, mas a criação da Autoridade Palestina, reconhecida pelos Estados Unidos, voltou a despertar a esperança de um Estado Palestino. Mesmo nas divergências com os vizinhos, Arafat sempre foi reconhecido no mundo árabe como o representante supremo da causa palestina e o responsável por mantê-la viva para os palestinos e para o mundo. Como lembrou o embaixador da Autoridade Palestina na Liga Árabe, Mohamed Subeh, Arafat conseguiu fazer com que, mesmo sem um Estado, os palestinos tivessem um lugar na ONU. Primeiro a falar após a abertura da sessão, Subeh disse que a presença de delegações "de Brasil a África do Sul" mostrou a admiração que o mundo tinha por Arafat. O embaixador do Líbano, Abdul Latid Mamluk, foi mais longe. Comparou o líder palestino ao revolucionário Che Guevara, embora o Brasil tenha sido o único país latino-americano a enviar um representante de alto escalão, o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, ao velório de Arafat no Cairo. Ramallah Para a jornalista Randa Ashmawi, a "dimensão real da importância de Arafat" foi dada pelos palestinos nesta sexta-feira em Ramallah. Fora dos territórios ocupados e dos campos de refugiados de palestinos nos países da região, porém, não houve grandes manifestações populares. A primeira explicação possível é o controle dessas manifestações na maioria dos países árabes. No Cairo, por exemplo, sem acesso ao velório de Arafat e sem poder se expressar nas ruas, muitos egípcios foram prestar a sua homenagem a Arafat nas mesquitas da cidade. Mas é verdade também que a imagem de Arafat como herói da resistência à ocupação israelense foi perdendo força com o humilhante confinamento no seu quartel-general em Ramallah. Para a jornalista da BBC no Cairo Heba Saleh, Arafat "continuará a provocar sentimentos complexos, uma mistura de respeito pela sua persistência, mas também de pena e exasperação" entre os árabes. |
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