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Atualizado às: 30 de agosto, 2004 - 09h08 GMT (06h08 Brasília)
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Sindicalista argentina rejeita pressão do FMI

Protesto na Argentina
Sindicalista promete protesto se o governo não cumprir promessas
A algumas horas do desembarque do diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), o espanhol Rodrigo Rato, na Argentina, a primeira líder sindical do país, Susana Rueda, avisa que os trabalhadores não vão tolerar mais as imposições de ajustes do organismo multilateral de crédito.

Rato chegará à capital argentina nesta terça-feira, de onde partirá no mesmo dia para Montevidéu, no Uruguai, depois Santiago, no Chile, e para o Brasil, onde desembarca no próximo dia 2.

Primeira mulher presente à cúpula sindical da Argentina, Susana Rueda, de 49 anos, mãe de três filhos, afirma que as receitas do fundo foram as que levaram o país para o "poço".

A sindicalista é secretária-geral da Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT), a maior do país, com 7 milhões de filiados, cerca de 30% do total nacional.

"Estamos preocupados com as imposições do FMI e do Banco Mundial. Elas só aumentam as diferenças sociais. Portanto, estamos muito atentos a esta visita do diretor do fundo e vamos acompanhar qual será a atitude do governo", afirma.

Pobreza

Para Susana, o FMI deve entender que a Argentina precisa crescer ainda mais, reduzir a pobreza e gerar empregos para só então pagar a dívida, em moratória desde dezembro de 2001, com os credores privados. "Não podemos pagar mais essa conta com a miséria dos nossos cidadãos", disse.

Em entrevista à BBC Brasil, em seu gabinete recém-pintado e sendo preparado para receber flores nas varandas, no histórico prédio da CGT, Susana Rueda lembrou as dificuldades que a Argentina passou nos últimos anos.

Piqueteiros argentinos
Líder sindical criticou a ação de grupos de piqueteiros

"Não podemos esquecer que a Argentina foi, durante muitos anos, um modelo de sucesso do neoliberalismo. O país era mostrado ao mundo inteiro como exemplo a ser seguido para se incorporar à globalização", diz a líder sindical.

"Mas, de repente, a Argentina explodiu, caiu e demonstrou que as políticas do FMI e do Banco Mundial nos trouxeram 50% de pobres na população nacional."

Com um broche da ex-primeira-dama Evita Perón na lapela, Susana Rueda é assessorada por quatro mulheres, elogia a disposição do presidente Néstor Kirchner ao diálogo com os sindicalistas, mas avisa que greves e outras mobilizações não faltarão, caso o governo não atenda as promessas que fez, como adotar programas produtivos para reduzir a pobreza.

Se a Argentina ceder a novas exigências do FMI, Susana diz que o governo também será castigado com protestos.

"Temos, nesse momento, um governo que está defendendo os interesses da Argentina no mundo com veemência. Um governo que decidiu reabrir a discussão sobre o salário mínimo, que aumentou o salário dos aposentados, como tínhamos pedido, e que está aberto ao diálogo", afirma.

"Mas tudo isso não quer dizer que continuaremos apoiando se ficar apenas nas intenções. Greves e mobilizações serão feitas, se o prometido não for cumprido, incluindo a relação com o FMI", ameaça.

Machismo

A sindicalista também criticou os piqueteiros – "não fazem protestos legítimos, são cada vezes minoria, não representam os trabalhadores, usam rostos cobertos e estão armados com paus e estão mais violentos" – e admitiu que está metida em um mundo machista, com forte presença de caminhoneiros e outras categorias ainda não ocupadas por mulheres na Argentina.

Susana Rueda
 O crescimento econômico (de 8,8% em 2003) melhorou a situação do trabalhador argentino, mas ainda falta muito para voltarmos a ter nosso país ideal, igualitário e justo como um dia já foi.
Susana Rueda

"Muitos deles ainda resistem a debater comigo, porque sou mulher. Mas, para mim, o pior sinal de que o machismo ainda existe aqui na confederação é quando apresento uma idéia e ela não serve, mas quando essa mesma idéia é apresentada por um homem é tida como extraordinária", conta Susana.

Para a líder sindical, ainda hoje é "muito difícil" que alguns homens possam reconhecer que as mulheres pensam e podem discutir de igual para igual.

Ela afirma que desde que assumiu o cargo de secretária-geral da CGT, há um mês, em um triunvirato ocupado por outros dois sindicalistas, teve início uma disputa que Susana classifica de "excessiva".

"Quando o debate existe, eles se unem em cinco ou seis para derrubar uma idéia que apresentei. Mas, mesmo assim, ainda acho que isso está mudando e a prova é que sou uma mulher e estou sentada aqui."

Trajetória

Nascida e criada na província de Santa Fé, Susana Rueda entrou para o sindicalismo quando tinha 19 anos e era porta-voz do sindicato dos profissionais de saúde – que reúne enfermeiras, pessoal de serviço e técnicos de hospitais e clínicas, entre outros – quando foi escolhida para ocupar a cadeira no prédio que foi construído por ordem de Evita, em 1952, pouco antes de sua morte.

Antes de Susana chegar para a entrevista, maquiada, penteada e vestida de blazer e calça bege, suas assessoras contaram que depois da pintura de todo o edifício histórico de cinco andares, será a vez de trocar o estofado das cadeiras do auditório e de colocar as flores na varanda do gabinete da líder sindical.

"O crescimento econômico (de 8,8% em 2003) melhorou a situação do trabalhador argentino, mas ainda falta muito para voltarmos a ter nosso país ideal, igualitário e justo como um dia já foi", diz a líder sindical.

Susana Rueda chegou ao cargo máximo da CGT, entidade criada na época do ex-presidente Juan Domingo Perón, graças à sanção no ano passado da chamada "lei de cupos" – que definiu cadeiras obrigatórias para as mulheres nas direções dos sindicatos.

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