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Socióloga britânica pede mais atenção para 'crimes do cotidiano' | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Como a maioria dos especialistas, a pesquisadora Fiona McCaulay, do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha), aponta o tráfico de drogas como uma das principais causas da violência no Brasil. Mas Fiona faz questão de ressaltar que há outro lado da violência no Brasil que, embora importante, não é suficientemente discutido: o que envolve crimes do cotidianos, provocados por discussões em bares, brigas de vizinho, em "nome da honra". "Se você for ver as taxas de homicídios, vai ver que mais da metade das mortes são causadas por brigas entre vizinhos ou entre famílias", diz a socióloga. "Como esses crimes não estão relacionados a esses grandes temas como tráfico, seqüestro, latrocínio, eles ficam completamente invisíveis." Fiona McCaulay diz que uma face dessa violência é a doméstica, contra a mulher. Na opinião da pesquisadora, este tipo de crime – que leva muitas mulheres à morte todos os anos – é deixado praticamente de lado nas discussões em torno da segurança pública. "Para atacar a violência doméstica, você precisa de uma tática completamente diferente. Você tem de ter um processo de educação, de informação. Além disso, você tem que atacar alguns traços culturais, como o machismo, por exemplo." Justiça informal Segundo Fiona, o problema deve ser atacado de várias frentes. "Uma delas é oferecer a essas pessoas algum tipo de serviço de mediação ou Justiça, uma justiça mais informal, no bom sentido, mas não no sentido de vingança ou do uso de justiceiros, esses tipos de ações não muito civilizadas", afirma. Nesse sentido, Fiona McCaulay elogia o surgimento dos juizados especiais de pequenas causas, em alguns Estados. "Eu acho que eles estão dando bons resultados. O cara vai lá no tribunal e tem mediadores que ajudam as pessoas a resolverem seus problemas, sem cometer violência", comenta a analista. "Quando o Estado é mais acessível e oferece esse tipo de serviço, que são mais acessíveis e mais flexíveis dos que os tribunais normais, é um sinal muito bom." Narcotráfico De um ponto de vista mais tradicional, Fiona McCaulay diz que considera fundamental que a sociedade ataque o tráfico de drogas e crie perspectivas para os jovens. Sem um investimento maciço nessas duas frentes, a pesquisadora, fica difícil diminuir os altos índices de violência no Brasil, principalmente nos grande centros urbanos. "O tráfico de drogas é um outro vetor muito importante que está ligado ao crime organizado, ao tráfico de pessoas, de armas e ao contrabando", afirma. "E dentro das favelas, que são áreas de exclusão social, está bem claro que essas atividades vão envolver muitos jovens que não têm perspectivas, que não têm nada no futuro." Fiona McCaulay também criticou duramente a falta de combate ao crime organizado no Brasil. Para a especialista, este é um desafio que o país precisa enfrentar. A sociólogo cita o exemplo da CPI sobre Crime Organizado no Congresso. "(A CPI) gerou milhares de páginas de fatos, de investigações, de inquéritos. Mas será que muitas pessoas foram processadas? Será que as autoridades conseguiram quebrar esses muros de crime organizado que envolvem membros do Judiciário, policiais ou políticos locais?" "Não", responde a própria pesquisadora. |
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