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Atualizado às: 21 de novembro, 2003 - 14h05 GMT (12h05 Brasília)
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Tráfico: 'Sem inclusão social, não há solução'

Para pesquisador, maioria dos jovens não tem opção
Para pesquisador, maioria dos jovens não tem opção

O antropólogo inglês Luke Dowdney, pesquisador do Iser (Instituto de Estudos Superiores da Religião) e do Viva Rio lançou no início do ano o livro “Crianças no Tráfico”, fruto de uma pesquisa sobre a participação de jovens no movimento e comércio de drogas no Rio de Janeiro.

Além de ser uma atividade ilícita, a OIT considera a participação de crianças e jovens no tráfico como uma das formas intoleráveis de trabalho infantil.

A pesquisa analisou entre 5 e 6 mil jovens armados e envolvidos com o tráfico no Rio de Janeiro. Segundo Luke, isso não representa nem 2% dos jovens na cidade, mas constitui um grande problema, já que o número de jovens envolvidos na luta entre traficantes aumentou muito a partir do final dos anos 80. “Isso reverbera em vários setores da sociedade”, diz o antropólogo, ”porque o nível de violência é altíssimo”.

Segundo Luke, o envolvimento de crianças no tráfico de drogas é apenas o sintoma de um problema muito maior, de exclusão social. Se esse problema não for tratado de forma articulada, diz ele, é praticamente impossível mudar a situação.

Leia abaixo a entrevista de Luke Dowdney à BBC Brasil.

BBC Brasil - O que leva essas crianças e adolescentes ao tráfico de drogas?

Luke Dowdney - Temos que ver que essa foi a única alternativa para a maioria dos jovens que a gente entrevistou durante a pesquisa.

A maioria dessas crianças disse que o tráfico é uma alternativa ao que eles recebem e não recebem da sociedade. Hoje em dia, o que a sociedade está negando a esses jovens infelizmente é oferecido pelo tráfico de drogas.

Identificamos uma série de pré-fatores. A questão da pobreza, obviamente, e a exclusão social desses jovens, a quem falta perspectiva de futuro.

A partir dos anos 80, temos também a questão da normalidade do tráfico. Ele virou a força que domina a ordem social da comunidade. Para um jovem de uma dessas favelas, é normal.

Além desses pré-fatores, há outros dois que levam as crianças a buscar essa “carreira”: a atração e a influência. Os atrativos são óbvios: o status e o dinheiro, que é fácil e rápido. E há também a questão da ascensão social. O jovem sabe que pode começar como olheiro e se ele fizer seu trabalho bem feito e tiver sorte, ele pode chegar a ser “dono” da comunidade. É uma ascensão que a sociedade nega a esse jovem.

BBC Brasil - Como foi a mudança da participação dos jovens no tráfico nas últimas décadas?

Dowdney - A partir do final dos anos 80, o número de jovens trabalhando armados em disputas de facções cresceu muito. O nível de violência em que eles estão envolvidos é altíssimo.

Entre 1987 e 2001, cerca de 460 jovens morreram no conflito entre palestinos e israelenses. Na mesma época, 3.937 jovens morreram por arma de fogo só na cidade do Rio de Janeiro. Oito vezes mais do que em uma área de conflito.

Mesmo que seja uma pequena parcela a dos jovens envolvidos no tráfico, ela representa uma situação extremamente violenta.

BBC Brasil - Esses jovens, em nenhum momento, pensam em conseqüências, ou têm medo?

Dowdney - Isso pesa e, por isso mesmo, mostra a tragédia da situação. Todas as crianças e jovens que entrevistamos falaram que sabiam que seriam mortos antes dos 18 anos de idade. Teve apenas um menino que disse que seria dono da boca e não iria morrer. Isso, para a gente, é uma tragédia.

É importante dizer que o tráfico não força ninguém a trabalhar, ninguém tem que trabalhar no tráfico. O jovem entra por escolha própria. Mas, se ele não tem alternativa, não há escolha nenhuma. Se o jovem tem uma série de escolhas e o tráfico vira a pior opção, em vez de a melhor, e ainda assim ele faz essa escolha, então ele é bandido.

Agora se o jovem escolhe o tráfico porque essa é a melhor das piores opções, então, ele não está escolhendo nada. Ele não tem opção, não tem alternativa, e é por isso que entra.

A sociedade precisa ter a responsabilidade de reverter a situação para que o tráfico de drogas seja a pior solução para os jovens, e não a melhor. Esse é o nosso trabalho agora.

BBC Brasil - Quais as opções para um jovem que quer sair do tráfico?

Dowdney - Praticamente nenhuma. Há poucos projetos, como o Luta pela Paz (coordenado por Dowdney, na Favela da Maré, onde os jovens aprendem boxe), ou o Afro Reggae (desenvolvido em Vigário Geral e outras favelas do Rio de Janeiro) que oferecem essa possibilidade.

Mas a maioria desses programas é preventivo, o jovem tem que realmente querer sair para buscar um deles. Não existem projetos criados especificamente para fazer contato com os jovens que já estão no tráfico e ofereçam a eles uma alternativa.

BBC Brasil – Qual a liberdade para os jovens deixarem o tráfico?

Dowdney - Já tivemos muitos casos de jovens que foram e falaram com seus gerentes, pedindo para sair. Normalmente, se eles são jovens, menores de idade, têm mais liberdade ainda para sair.

Se tiver uma dívida, não pode sair. Se tiver pago a dívida, está livre para sair. Não quer dizer que isso é fácil.

Existe muito preconceito dentro da própria comunidade em relação a um jovem que saiu do tráfico, porque todo mundo sempre vai achar que ele é traficante.

Além disso, existe o preconceito da própria polícia, que conhece esse menino e sabe que ele estava trabalhando no tráfico.

Esse é o grande desafio. O jovem precisa reconquistar a auto-estima e também conseguir que as pessoas aceitem que ele realmente quer mudar de vida. Para isso, é preciso estrutura, projetos, seja do governo, seja de ONGs, para que o jovem possa conquistar trabalho.

Obviamente, ele vai precisar de trabalho, mas não de um salário igual ao que ele ganhava no tráfico.

BBC Brasil - E eles aceitariam ganhar menos?

Dowdney - Todos eles falam: dinheiro limpo dura mais. Quanto mais você ganha no crime, mais você gasta. Mas o dinheiro que é lícito pode ser depositado num banco. Todos falam que aceitariam ter um emprego com carteira assinada, porque isso dá perspectiva.

Não é aquela coisa de que você não sabe quando, ou quanto de dinheiro vai entrar. Você tem a quantia certa, todos os meses.

Além do dinheiro entrando, o jovem sabe que tem alguma perspectiva, tem algum status. Não estou falando de ser dono de nada, mas o status de uma pessoa que é vista pela sociedade, que vale, tem vida própria.

A noção de trabalhador na sociedade é muito respeitada. O jovem quer entrar nesse espaço, sem dúvida nenhuma.

BBC Brasil - É possível tirar o jovem do tráfico sem inclusão social?

Dowdney - Se você não incluir o jovem em termos sociais e econômicos, para cada um que você consegue tirar do tráfico, há mais dez entrando. Hoje em dia, cerca de 600 jovens por ano morrem por arma de fogo no Estado do Rio de Janeiro. Cerca de 320 por ano apenas na cidade.

O número de jovens mortos por armas de fogo subiu de uma forma radical a partir dos anos 80, assim como o número de homicídios entre adultos e o número de armas de fogo apreendidas pela polícia.

Nessa mesma época, as facções começaram a se manifestar, a se organizar e a brigar pelo território das favelas.

E, mesmo com tantos jovens morrendo por ano, ainda há mais e mais jovens entrando no tráfico. Se você não trata o problema na fonte, a gente não vai mudar a situação.

Quer dizer: não vejo o tráfico como a raiz dos problemas. Ele é o sintoma de uma série de outros problemas. Se você não trata esses problemas - exclusão social, perspectivas para jovens, marginalização de várias áreas na cidade, geograficamente, economicamente e socialmente, pobreza e exclusão - você vai acabar não tratando o problema do tráfico.

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