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Niall Ferguson e a relutância do império americano | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O enfant terrible escocês Niall Ferguson deixou de chocar, mas ainda diverte com suas diatribes intelectuais. Em seus livros, artigos para as publicações mais influentes dos dois lados do Atlântico e aparições na televisão, esse historiador de Oxford e agora também de Harvard defende com erudição, idiossincrasia e bom humor as glórias passadas do Império Britânico e lamenta num tom politicamente incorreto a falta de estômago dos EUA para assumir responsabilidades equivalentes no mundo moderno. Colossus, seu novo livro, é uma seqüência natural de Empire e a idéia de que "impérios liberais" promovem democracia, prosperidade e estabilidade nas terras conquistadas. Na tese de Ferguson, a ausência dessa vocação dissemina caos, instabilidade e atraso econômico. Para ele, a relutância americana para assumir com gosto seu destino imperial ajuda a explicar e muito a ameaça de anarquia global. Para muitos críticos da política externa dos EUA, o imperialismo americano é um truísmo. Mas Ferguson vê negação dessa condição histórica em um país que usou e abusou de violência para adquirir territórios desde a sua infância, tem hoje 752 bases militares em 130 países e representa mais de 25% da economia mundial. Ferguson é saboroso nas suas lamúrias. Ele diz que os americanos preferem consumir em vez de conquistar e estão mais concentrados na construção de shopping centers do que de nações. MTV Que diferença em relação aos britânicos imperiais que assumiam a carga do homem branco e mandavam colonos e administradores para sua províncias remotas. Em uma de suas típicas frases de efeito, Ferguson escreve que os jovens americanos mais brilhantes "sonham em administrar a MTV e não governar a Mesopotâmia". Ferguson é crítico da aventura americana no Iraque, mas não pelas razões mais previsíveis. Ele acha insensato um país ocupante fixar prazos para a devolução da soberania. Nos cálculos de Ferguson, a ocupação do Iraque deveria durar uns 40 anos, mas de novo está se repetindo um ciclo de envolvimento ardoroso seguido de desengajamento. Essa atitude costuma resultar em confusão e fracasso da missão. Ele argumenta que os EUA são mais bem sucedidos internacionalmente quando estão dispostos a conquistar e ficar - como na Alemanha e no Japão após a Segunda Guerra - e também quando trabalham através de instituições internacionais que limitam mas legitimam o poder imperial americano. Citando com nostalgia os conservadores vitorianos, Ferguson escreve que "não existe nada mais perigoso para um grande império do que o isolamento esplêndido". Essa, obviamente, é a situação em que os EUA se encontram hoje em dia devido ao agressivo unilateralismo da administração Bush. Ferguson adverte que, além de carecer da disposição para administrar um império, a superpotência americana em breve não terá meios para a tarefa devido à crise fiscal. Ferguson, evidentemente, lamenta tal cenário. Com sua fundamentada arrogância intelectual e argumentos espirituosos, Ferguson é um achado para quem admite as complexidades morais da história, embora não seja preciso ser um nostálgico de um passado imperial para lamentar que a descolonização tenha resultado em gente como Idi Amin ou Robert Mugabe. Mas a tese de Ferguson enfrenta contra-argumentos colossais. O primeiro é que a relutância imperial americana pode perfeitamente ser fruto de sabedoria. Para que administrar um "império liberal"? E o segundo ponto é que Ferguson subestima a força, para o bem ou para mal, do nacionalismo. Colossus |
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