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'Instabilidade no Iraque impede EUA de novos ataques' | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O filósofo e linguista Noam Chomsky acredita que o mundo se tornou um "lugar bem mais perigoso" por conta da invasão americana no Iraque. Mas para ele, as dificuldades que os Estados Unidos estão encontrando na ocupação do país é uma das poucas coisas que impediram a "superpotência" de iniciar novas ações militares em outros cantos do planeta. "A minha expectativa era de que a ocupação e o controle do Iraque pelos Estados Unidos seriam coisas fáceis, mas estão sendo surpreendentemente difíceis para a superpotência. A demonstração de incompetência e ignorância na ocupação iraquiana foi tamanha que reduziu muito a possibilidade de uso da força em outras situações", disse à BBC Brasil o filósofo, tido como um dos mais agressivos críticos das políticas americanas dentro dos círculos intelectuais do país. "Se a ocupação (do Iraque) tivesse sido bem sucedida, eles poderiam estar agora aumentando a presença militar nos Andes. Há uma grande atenção do governo americano à situação na Colômbia, na Bolívia e na Venezuela." Carta branca O professor nota que a doutrina de segurança estabelecida após a guerra do Iraque dá aos Estados Unidos “carta branca” para atacar qualquer outra nação. "Inicialmente, os Estados Unidos se basearam na doutrina da guerra preventiva, argumentando que o Iraque tinha armas de destruição em massa. Como elas não foram encontradas, a doutrina foi mudada, e (o secretário de Estado) Collin Powell já deixou claro que basta um país ter a habilidade de produzir armas e a intenção de usá-las para ser candidato a um ataque", diz. "A habilidade e a capacidade quase qualquer país pode ter. E a intenção está nos olhos de quem julga." Chomsky observa que, embora sem declarar uma guerra aberta, os Estados Unidos estão aumentando a pressão sobre outros países do Oriente Médio. "Os Estados Unidos enviaram mais de cem bombardeiros F-16 para Israel e fizeram algumas declarações sobre a capacidade de eles voarem até o Irã e voltarem sem necessidade de reabastecimento. Os Estados Unidos também estão fornecendo a Israel algum tipo não especificado de 'armamento especial'", comenta. Madri Para Chomsky, os ataques em Madri provam que a estratégia americana acabando criando e fortalecendo os laços que supostamente pretendia combater. "Antes, especialistas concordavam que não havia qualquer relação entre terrorismo internacional, Al-Qaeda e o Iraque, apesar de o governo americano ter feito essa afirmação repetidas vezes. Agora, sim, o Iraque se tornou um campo de trabalho para a Al-Qaeda e um elemento na estratégia dela." O intelectual diz que concorda que o Iraque está melhor sem Saddan Hussein mas ressalva que "o ponto não é esse e, sim, o desejo dos Estados Unidos de controlar os recursos energéticos da região e do estabelecimento de um equilíbrio de forças mais favorável ao país no Oriente Médio". "Se as sanções (contra o Iraque) tivessem sido planejadas de modo a atingir o governo e não o povo, os próprios iraquianos já teriam se livrado do tirano há muito tempo", argumenta. Eleições americanas O filósofo acha que o impacto da guerra nas eleições ainda é incerto. "A opinião pública mundial é majoritariamente contra a guerra, mas aqui nos Estados Unidos a maoria do grande público ainda acredita que o Iraque estava desenvolvendo armas de destruição em massa e que o ataque era necessário", diz. "Mas é importante lembrar que, por algum tempo, até a Guerra do Vietnã teve grande popularidade nos Estados Unidos." Chomsky observa que as principais figuras do governo Bush já estavam em postos-chave nos anos 80, durante os governos de Ronald Reagan e George Bush. "Esse pessoal de tempos em tempos tem de apertar o botão do pânico", diz. "Nos anos 80, eles colocaram o país em estado de emergência nacional pelo risco à segurança apresentado pela Nicarágua. É o tipo de coisa que nenhum observador leva a sério." Chomsky diz que o poder econômico das campanhas vai definir o que os americanos vão pensar a respeito do Iraque. "A campanha de George W. Bush tem uma enorme quantidade de dinheiro em caixa (estimativas vão de US$ 100 milhões a US$ 170 milhões) para inundar a mídia deste país com informações favoráveis a respeito da guerra no Iraque e o governo Bush." |
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