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Com prefeito preso, cidade colombiana é governada da cadeia | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A exemplo de Macondo, a cidade imaginária criada por Gabriel García Marquez, a pequena Quinchía, a 350 quilômetros da capital Bogotá, poderia se converter em fonte de inspiração literária. Há cinco meses, desde que o ex-prefeito, seu sucessor e o adversário dele nas últimas eleições foram levados para a prisão, os moradores não sabem se estão vivendo uma história baseada no realismo mágico tão bem representado na obra do escritor colombiano, ou se apenas estão sendo penalizados pelo governo nacional. Ninguém tem certeza de quem está mandando na cidade de pouco mais de 40 mil habitantes. Além dos três presos, também estão na cadeia o presidente da Câmara de Vereadores, o comandante do Corpo de Bombeiros, o irmão do padre, vários membros da administração municipal e 75 agricultores. O açougueiro local também não escapou da perseguição. Acusados de rebelião, todos foram detidos na madrugada de 28 de setembro do ano passado, numa operação chamada de "liberdade", que teve elementos de espetaculosidade. Invasão "Chegaram aproximadamente mil agentes da polícia às 4h30 da madrugada. Eles tomaram todo o município e nos capturaram de uma maneira que parecia um filme de guerra", lembra o ex-prefeito Gildardo Trejos Vélez, impedido de concluir seu mandato, que terminaria em janeiro. "Os helicópteros sobrevoaram baixo todas as casas. Eles rodearam a zona urbana e depois foram para a área rural. Capturaram a todos que eles encontraram no caminho." Segundo a Fiscalia, órgão responsável pelas investigações, há provas de que os 90 presos sejam militantes ou colaboradores do Exército Popular de Libertação (EPL), grupo guerrilheiro de tendência maoísta em extinção no país, mas ainda com força na região. Na avaliação do prefeito, Jorge Alberto Uribe Florez, as prisões são fruto de perseguição política contra a direção do Partido Liberal na cidade. Ele explica que Quinchía foi a única cidade da região em que o presidente Álvaro Uribe não saiu vencedor nas últimas eleições. A senadora Piedad Córdoba concorda. De acordo com ela, as pessoas de Quinchía estão sendo tratadas como culpadas de uma maneira injustificável. "Por trás dessas prisões está a intenção do governo de impedir que eles possam ser eleitos, como ocorreu em outras cidades do país, ou no caso do prefeito de Quinchía, que foi eleito, mas não pode governar". Votação recorde O insólito é que, apesar da prisão, a campanha de Uribe Florez foi mantida. No dia das eleições, 26 de outubro do ano passado, ele recebeu a maior votação registrada na história da cidade. "A população acreditou na minha inocência e seguiu fazendo a campanha normalmente", diz Uribe Florez, que se encontra em uma prisão com outras quase mil pessoas, que são acusadas de todos os tipos de crims. "Foi uma resposta contra as capturas massivas que estão ocorrendo no país, seguindo a política de ‘segurança democrática’ do presidente Álvaro Uribe". Em 1º de janeiro, o prefeito teve uma permissão para sair da prisão por duas horas para ser empossado. No ato, que contou com as presenças do governador do Estado de Risaralda, Alberto Botero, e de uma senadora, ele falou de sua inocência e, em seguida, teve de voltar para a cadeia. Botero foi obrigado a nomear um prefeito encarregado em Quinchía. Mas, na prática, Uribe Florez segue governando. "O prefeito encarregado governa em comum acordo com o titular", afirma Luis Alfonso Palácios, secretário municipal de Governo. "O prefeito Uribe Florez apresentou um plano de governo durante a campanha e este foi aprovado pelos cidadãos. O encarregado precisa seguir a mesma proposta, porque o titular não foi destituído". As detenções não pararam em Quinchía. Hoje, são mais de 100 moradores que se encontram presos acusados de rebelião. Injustiça "Não é justo o que está acontecendo aqui. Estas pessoas estão presas há quase cinco meses sem que ninguém diga se são culpadas ou inocentes", reclama o aposentado Zosimo Gomez. "A Fiscalia precisa dar uma resposta". A demora já trouxe conseqüências. Um dos presos, o mecânico Javier Antonio Manso, que estava se recuperando de um infarto, acabou morrendo na cadeia. "Muitos dos familiares dos 75 camponeses presos estão passando fome", afirma a agrônoma Blanca Viviana Uribe. "Todo o povo sofre com o estigma de ser apontado como guerrilheiro. A economia do município está mal, porque ninguém quer mais investir aqui". O ex-prefeito Gildardo Trejos Vélez não perde as esperanças. De acordo com ele, as acusações são muito leves, puros rumores, e eles devem sair da prisão em pouco tempo. "Nossos adversários políticos nos acusaram de sermos colaboradores do EPL, mas isso não tem fundamento", diz Gildardo, cujo governo foi o mais popular do Estado de Risaralda. "Foi um complô político. Temos provas suficientes para demonstrar isso". |
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