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Atualizado às: 07 de fevereiro, 2004 - 02h20 GMT (00h20 Brasília)
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Atentado contra clube em Bogotá completa um ano

Arma colombiana
As Farc foram culpadas pelo atentado, mas negam participação
O maior e mais grave ataque terrorista da história recente colombiana não mudou apenas a vida das duas centenas de vítimas, 38 mortos e mais de 160 feridos, e de seus familiares. Um ano depois do atentado a bomba contra o clube El Nogal, em Bogotá, a população ainda convive com as medidas preventivas adotadas para evitar que tragédias semelhantes ocorram novamente.

Centros comerciais, estacionamentos públicos, clubes e lugares com grandes aglomerações mantiveram as revistas a carros, bolsas e pessoas - com equipamentos e cães treinados para detectar explosivos -, adotadas depois do incidente, em 7 de fevereiro do ano passado.

No início, a estudante Andréa Arismendez criticou o excesso de cuidado destes lugares. Hoje, ela acredita que as revistas são necessárias.

"Pode ser um pouco entediante que olhem sua bolsa toda vez que você precisa entrar num centro comercial", afirmou. "Mas sabemos que isto é para garantir a nossa segurança porque, a qualquer momento, em qualquer lugar, pode ocorrer um incidente como o do Nogal."

Rotina

Raquel Gomez, gerente comercial de um dos maiores shopping centers de Bogotá, diz que agora as pessoas entendem melhor a importância da prevenção.

"Nós mantivemos nossa estratégia de segurança para gerar mais confiança nas pessoas", assinalou. "Hoje, todo mundo já se acostumou, se tornou um hábito de vida."

Conforme o coronel William René Salamanca, diretor da Superintendência de Vigilância e Segurança Privada, o setor está vivendo uma de suas melhores fases.

"Depois do que ocorreu com o Nogal, a demanda por cães para detectar explosivos aumentou imediatamente", disse. De acordo com ele, o número de farejadores teve um crescimento de 100%, o de escoltas, 40%, e o de guardas particulares, 17%.

Apesar de todas as medidas para garantir a segurança da população, Beatriz Miranda, diretora acadêmica do Instituto de Cultura Brasil-Colômbia, não está tranqüila.

"Com o que ocorreu no Nogal, sentimos pela primeira vez que o conflito interno colombiano tinha chegado a Bogotá, e a cidade não estaria mais protegida", disse a mineira que vive há seis anos na capital colombiana. "Isso causou uma mudança nos hábitos da maioria das pessoas. Eu já não vou mais com tanta freqüência aos centros comerciais e deixei de levar meu filho num dos parques mais visitados de Bogotá."

Sentimento nacional

Segundo Daniel García-Peña, professor de Ciências Políticas da Universidade Nacional, o atentado contra o clube El Nogal, símbolo da elite colombiana, consolidou um sentimento nacional em favor da política de segurança e de luta contra o terrorismo do presidente Álvaro Uribe.

"Pensamos que depois deste atentado ocorreria uma ofensiva terrorista urbana no país. Mas nada disso aconteceu, nem em Bogotá, nem em outro lugar", explicou. "Em parte, isso responde aos atos da Polícia e do Exército para prevenir esta classe de ações."

Vitória de Álvaro Uribe?
 Pensamos que depois deste atentado ocorreria uma ofensiva terrorista urbana no país. Mas nada disso aconteceu, nem em Bogotá, nem em outro lugar.
Daniel García-Peña

O analista político Antonio Sanguino concorda com García-Peña. Na avaliação dele, com este atentado, os autores intelectuais, sejam eles guerrilheiros, paramilitares ou narcotraficantes, também puderam constatar que um ataque como este jamais receberá apoio popular.

"Este ato gerou um alto nível de reações dos cidadãos e uma maior disposição de colaborar com os organismos de segurança do estado, para evitar que este tipo de ato lamentável siga ocorrendo", afirmou Sanguino.

Investigação

Além de ter mudado os hábitos da população, o atentado contra o clube El Nogal também será lembrado por ter tido uma das investigações mais polêmicas e confusas ocorridas no país.

Apesar da Procuradoria Geral da Nação, órgão responsável pelas investigações, ter concluído que não há qualquer dúvida de que os autores intelectuais do ataque foram os guerrilheiros marxistas das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), os tropeços do processo fizeram com que muita gente desconfiasse dos resultados.

Os investigadores chegaram a esta conclusão cruzando os depoimentos de alguns guerrilheiros capturados em 2003 e de outros que abandonaram voluntariamente as Farc. No entanto, muitas dúvidas, mistérios e divergências surgidos durante a investigação ainda não foram solucionados.

Os fiscais não conseguiram esclarecer, por exemplo, se houve ou não participação de narcotraficantes no ataque e qual foi o motivo que levou as Farc a planejar o incidente.

No processo, há uma versão afirmando que o ataque era contra Salvatore Mancuso, líder dos paramilitares colombianos, que tinha saído do clube duas horas antes da explosão.

Em estranhas circunstâncias, saiu da Colômbia, em julho do ano passado, Amelia Pérez, a primeira encarrega pela investigação.

Três meses antes, ela denunciou ter sido afastada do caso por se recusar a apontar as Farc como culpadas. Na ocasião, ela disse à BBC Brasil que, enquanto esteve à frente das investigações, não conseguiu encontrar nenhuma prova conclusiva de que a guerrilha estava por trás do ataque.

 Um ano depois, acredito que ainda continua sendo válido tentar descobrir quem realmente cometeu este atentado. Há muitas perguntas e interrogações pendentes. Ainda não podemos dizer com certeza quem são os reponsáveis.
Daniel García-Peña

Mais grave que a situação de Amelia Pérez foi a do fiscal Germán Camacho, que a substituiu e acabou assassinado.

"Estamos certos de que foram as Farc", disse o fiscal geral, Luis Camilo Osorio, que determinou a abertura formal da investigação contra toda a direção guerrilheira, além de um processo interno para averiguar a fiscal Amelia Pérez.

O analista García-Peña diz que é difícil concordar com as conclusões da Procuradoria. De acordo com ele, ainda existem muitas dúvidas para afirmar que as Farc foram os autores, quando a própria guerrilha nega.

"As provas, as evidências apresentadas, são insuficientes", afirmou. "Um ano depois, acredito que ainda continua sendo válido tentar descobrir quem realmente cometeu este atentado. Há muitas perguntas e interrogações pendentes. Ainda não podemos dizer com certeza quem são os reponsáveis."

Imprensa

A imprensa colombiana já apresenta como definitiva a responsabilidade das Farc. No entanto, diverge sobre os rumos da investigação.

No último domingo, por exemplo, as duas revistas semanais de informação destacaram pontos de vista diferentes nas reportagens que fizeram sobre o primeiro aniversário do atentado contra o clube El Nogal.

Enquanto uma apresentou uma série de versões que não foram confirmadas nem desmentidas pelos responsáveis do caso, a outra garantiu que a investigação passará à história como exemplo de eficiência e agilidade.

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