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Atualizado às: 12 de novembro, 2003 - 14h05 GMT (12h05 Brasília)
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Um cheirinho de Vietnã
Ivan Lessa


Eu ainda não vi na televisão, inglesa ou americana, aqueles famosos body bags, ou sacos de corpos – corpos de soldados americanos, bem entendido – voltando para casa. Também não vi enterro com caixão coberto pela bandeira americana. Os pracinhas estão morrendo cada vez mais.

Há, nos Estados Unidos, para muita gente, um cheiro de Vietnã, ou de derrota, no ar, parafraseando a célebre frase do Apocalypse Now, pronunciada pelo general Kilgore, personagem vivida pelo ator Robert Duvall: “Eu adoro o cheiro de napalm pela manhã. Cheira a… a vitória.”

Segundo o historiador militar dr. Joseph Dawson, de uma universidade militar do Texas, o público americano reage às baixas sofridas de acordo com a causa que, no entendimento dele, os soldados estão defendendo.

Ele acrescenta que se a causa for significativa bastante, neste caso então o público suportará as perdas, como nos casos da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Civil Americana.

Mas se a causa não lhe parecer significativa, ou de importância maior, esse apoio desaparece. E finaliza o historiador dizendo que ainda é muito cedo para dizer.

A primeira semana de novembro foi um horror para os americanos. Mais de 30 mortos em apenas 7 dias. O tal cheiro de Vietnã permeia fundos bolsões do país.

As redes de televisão fazem seu dever patriótico. Não há “ocupação” mas sim “liberação”. Não há “resistência iraquiana” mas sim “insurgentes iraquianos”. Armas de destruição em massa? Ninguém mais fala nisso nem sequer sabe de que se trata.

Aos poucos, no entanto, alguns dados vão surgindo que dão uma dica de a quantas anda a liberação do país que fez, ou fazia, parte do Eixo do Mal.

Por exemplo: mesmo que a televisão não mostre enterro de soldado, vazou a notícia de que o tradicional “taps”, o toque de silêncio, soprado pelo corneteiro na hora da cerimônia, ameaça entrar para o hit parade.

Isso porque, segundo a coronel tenente Cynthia Colin, do ministério da Defesa, há 1800 veteranos morrendo por dia (outras guerras, outros toques), e o exército americano conta com apenas 500 corneteiros.

A solução encontrada para o problema foi adaptar um rolo de fita cassete às cornetas e um militar, como num programa de calouros, simplesmente finge tocar inflando as bochechas.

Definitivamente: um cheirinho de Vietnã no ar.

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