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Da morte brasileira
Nós, brasileiros, temos uma relação das mais curiosas com a morte. Não que haja sobre a face da terra algum povo ou país que tenha resolvido a melhor maneira de lidar com a questão fundamental que já ocupou e preocupou o tempo de filósofos e poetas. Na semana passada, por exemplo, o ex-presidente general Ernesto Geisel ganhou postumamente um azulejo graças a uma frase sua, gravada e divulgada no mais recente livro de Elio Gaspari. Um mês antes de sua posse, em palestra com o também general Dale Coutinho, que viria a ser seu futuro ministro do Exército, Geisel – mais tarde conhecido como o general da distensão – apoiou de forma a mais clara possível o assassinato de opositores do regime. Disse ele, em meio a um saudável papo político sobre os dissabores da oposição: "Ô Coutinho, esse troço de matar é uma barbaridade, mas acho que tem que ser". As futuras antologias de frases célebres haverão de guardar e de lembrar. No Brasil, me desculpem, nunca se sabe. Mas também nunca se desespera de, ao menos, deixar alguma forma de registro sobre nossos momentos menos brilhantes. Morrem agora, e em números em que as estatísticas variam furiosamente, crianças e marmanjos, de várias formas de barbaridade – fome, doenças – e que não precisavam de ser de forma alguma, para parafrasear o general Geisel. Isso no capítulo de crianças e marmanjos, os anônimos de sempre. Mas não há nada nem ninguém mais morto do que um imortal de bom tamanho da Academia Brasileira de Letras. Fiquemos na semana passada mesmo. Morreu a escritora Rachel de Queiroz. Nem bem estava seca a tinta dos jornais com seus obituários e necrológios da romancista cearense, e as colunas sociais, já que as literárias não existem mais, anunciavam o nome dos primeiros candidatos à vaga naquele cantinho da "glória que honra e consola": o historiador José Murilo de Carvalho, o historiador Jozé Louzeiro, o lobista e publicitário Mauro Salles foram os primeiros que despontaram. A eleição do imortal da ABL é hoje o equivalente ao Grande Prêmio Brasil no Jóquei e vem logo depois do desfile das escolas no sambódromo. Livros imortais? Ora, os livros imortais! Escrever – não que seja preciso para ser imortal – é isso: uma barbaridade, mas parece que tem que ser. |
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