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Outros tempos
No dicionário de lugares-comuns sobre Londres, dois itens são imprescindíveis: o tempo, no sentido de meteorologia, e o fog. Ambos poderiam ser abordados no mesmo verbete. Em primeiro lugar, o tempo. Os ingleses discutem o tempo o tempo todo, esclareceria o hipotético tomo. Enquanto os franceses molham biscoitos no chá e filosofam com elã e fôlego sobre a passagem dos dias, que acabam virando anos e séculos, todos altamente especulativos, os ingleses vêem o tempo com mais naturalidade. Ou seja, tal como ele se desenrola naquele preciso momento: chove, faz sol, venta, está quente, está frio. E têm de fazê-lo muito rapidamente porque logo, em questão de minutos, o tempo vai e muda. O tempo é, portanto, meteorologia. Um assunto para quebrar qualquer gelo, no mais amplo sentido do termo. Por falar em gelo e iceberg, consta que sobreviventes do Titanic passaram horas, antes de serem recolhidos, discutindo o tempo. Já o fog ainda há quem chegue e espere o ruço, a névoa, a neblina, chamem do que quiserem mas será sempre fog e se passa em London Town, como imortalizou a balada de George e Ira Gershwin, cantada e dançada por Fred Astaire num daqueles velhos filmes da RKO e que, depois, virou um clássico e todo mundo gravou. Não há mais fog na cidade de Londres. Principalmente nas cercanias do Museu Britânico empanando seu charme, conforme apregoa a tal canção. Eu peguei, em janeiro de 1957, um fog daqueles que eles costumavam chamar de “sopa de ervilha”: não dava para se ver um palmo adiante do nariz, por falar em lugar-comum. Eu era muito jovem, o fog muito velho. Um policial de meia-idade me ajudou a encontrar um táxi para com ele desbravar o desconhecido rumo à minha pensão. Aí veio uma lei, chamada de Lei do Ar Puro, que acabou com aquele danado daquele carvão poluindo a cidade. Hoje, Copacabana de manhãzinha, no inverno, tem mais fog que a cidade de Londres. Falta museu. E a chuva? A Agência Ambiental, que cuida dessas coisas, revela que hoje chove menos. Entre 1998 e 2002, um metro cúbico de chuva por ano. Agora, neste 2003 que bate suas botas (mais um lugar-comum), beiramos apenas os 50 cm. Chato. A chuva era o assunto que sobrara para aqueles que fazem do tempo, ou da meteorologia, seu tema de papo. Continua, no entanto, valendo outra tradição, principalmente nos pubs: jamais levar a conversa para política ou religião. |
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