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Meu Brasil estrangeiro
O brasileiro é o melhor freguês do brasileiro. O brasileiro adora tudo que é brasileiro. Onde quer que esteja, o brasileiro não se esquece do brasileiro. Do gosto brasileiro, do cheiro brasileiro, do jeito brasileiro. O brasileiro emigra e, no estrangeiro, logo começa a oferecer serviços brasileiros a outros brasileiros emigrantes. Daí, os brasileiros fazem suas poupanças e mandam para o Brasil a fim de outros brasileiros irem para o estrangeiro, onde então se transformam em mais fregueses das coisas e graças brasileiras. Como vêem, uma solução engenhosa, que mais útil seria se empregada no Brasil, onde resolveria o problema do desemprego e dos fluxos migratórios que tanto atrapalham nosso tráfego. Faço essas considerações depois de passar os olhos numa revista brasileira para a colônia brasileira de Londres. A revista é mensal, tem distribuição gratuita ou por assinatura (não entendi), custa perto de 4 dólares por exemplar, com 116 páginas a quatro cores e em papel cuchê. Vive, é óbvio, de anúncios. Muitos. De todos os tamanhos. Toscos, caprichadíssimos. Não sei quanto custa sua publicação. Não sou jornalista, apenas mais um emigrante observando interessado a passagem de meus compatriotas pelo estrangeiro. A maior parte dos anúncios é de cursos de inglês. Seguem-se envio de dinheiro e serviços variados, com ênfase em comidas e comilanças, acomodação e cabeleireiros. Impressionante como nos ocupamos de nossos cabelos. Só perdem para pão de queijo e "quartos e vagas em ambiente familiar". Não deixamos para trás nossas crenças. Páginas e mais páginas das inúmeras – ai, Senhor! – Assembléias de Deus, mais Comunidade Evangélica, Movimento Pentecostal e esoterismos diversos como o Movimento de Iluminação da Humanidade e a London Revival Church ("A Igreja que Ama Você"), sem esquecer de espiritismos vários, macumba, candomblé, quimbanda e babalaôs para todas as ocasiões, onipresentes como médicos, dentistas e quebras-galhos. Nisso tudo, tentou-me apenas a oferta da picanha maturada brasileira embalada individualmente a vácuo. De resto, finco o pé e recomendo: fiquem por aí mesmo, brasileiros, no troca-troca que é viver nos trópicos. Aqui no estrangeiro é frio, duro e dói mais. |
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